quinta-feira, 19 de maio de 2016

FLEXÃO DE GÊNERO EM YORUBÁ

Por Thonny Hawany

Antes de falarmos do tema propriamente dito, é importante definirmos, inicialmente, as palavras que compõem a expressão “flexão de gênero”.

Flexão é o fenômeno linguístico pelo qual se faz a diferenciação de significado de uma palavra pelo acréscimo ou supressão de uma desinência ao seu radical ou tema. Sendo assim, quando acrescentamos um -a ao radical gat- para formar o feminino de gato, praticas uma flexão de gênero em língua portuguesa.

Outra definição que merece nossa atenção é a que nos elucida a palavra gênero. Ao consultar os dicionários de língua portuguesa, verificamos que essa expressão é extremamente polissêmica, ou seja: pode possuir muitos significados de acordo com o contexto.

No entanto, para esta matéria, basta-nos a definição que reduz a palavra gênero a uma categoria puramente gramatical sobre a qual se pode determinar o que é neutro, o que é feminino e o que é masculino no mundo dos seres e das coisas.

Em yorubá, o gênero gramatical é feito com certas peculiaridades que também permeiam a língua portuguesa, a flexão em que se usa a colocação de desinência nos radicais e temas não existe naquela língua assim como no português. A diferenciação entre o feminino e o masculino se dá de outras formas para o povo yorubá.

Vejamos a seguir algumas formas de o povo yorubano fazer a flexão de gênero:

I. O gênero masculino e feminino, quase sempre, é feito pelo uso de palavras diferentes para designar um e o outro. Vejamos algumas ilustrações:
ọkúnrin = homem / obìnrin = mulher
àkùkọ = galo / adìẹ = galinha
ọkọ = marido / aya = mulher
 ọba = rei / ayaba = rainha

II. No dicionário Yorubá Português de José Beniste (2014), está escrito que também se pode fazer o gênero usando a justa posição ou aglutinação de radicais. As palavras ọkúnrin e obìnrin (homem e mulher respectivamente) podem aparecer justapostas a outros raciais para indicar a flexão de gênero. Veja o exemplo que tiramos de Beniste (2014, p. 14):
ọrẹ́ + ọkùnrin = ọrẹ́’kùnrin – que significa amigo.
ọrẹ́ + obìnrin = ọrẹ́’bìnrin – que significa amiga.

III. Outra forma utilizada para fazer o gênero em yorubá é idêntica à forma portuguesa de flexionar o gênero dos substantivos epicenos. Veja a comparação entre s duas línguas no quadro a seguir, para compreender melhor. As palavras macho e fêmea, em yorubá, são akọ e abo respectivamente. Para fazer o feminino e o masculino de boa parte dos animais conhecidos na cultura yorubana, usa-se antepor essas palavras aos seus nomes.

akọ ajá
cão
abo ajá
cadela
akọ àjàpá
tartaruga macho
abo àjàpá
tartaruga fêmea
akọ ẹiyẹle
pombo
abo ẹiyẹle
pomba

            Em face do exposto, entendemos que a flexão de gênero em língua yorubá não se distancia da forma como se faz a flexão dos substantivos irregulares em língua portuguesa.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorubá português. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário eletrônico Aurélio (Móbile), versão 2. 5. ed. Paraná: Positivo, 2010.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

ÒNÍRÀ: A SENHORA DE IRÁ

Por Thonny Hawany

Ònírà, senhora de Irá, é um dos òrìṣà mais complexos dentre todos os òrìṣà. Ela pode ser impulsiva, geniosa, tensa e intempestiva; mas, ao mesmo tempo, pode ser generosa, tolerante e compassiva.

Segundo relatos, Ònírà, quando viveu na terra, foi uma guerreira que pertenceu à família real de Irá, pequena cidade do Estado de Kwara, localizada nas proximidades de Offa, na República Federativa da Nigéria.

Ònírà queria ser rainha, mas vivia numa sociedade patriarcal em que as mulheres não podiam herdar o trono. Tanto era a sua vontade de governar seu povo que declarou guerra a todos os homens na linha de sucessão, por isso foi tida como uma guerreira muito violenta.

No Brasil, Ònírà é cultuada como se fosse um dos caminhos de Iansã. No entanto, conforme está consignado nos itans, ela é um òrìṣà em si mesma assim como as outras iabás: Òyá, Òṣùn, Iemanjá, Naná(n), Yewa, Otin.

Num dos mais populares itans que fala sobre Ònírà, depois de quase morrer afogada no reino de Òṣùn, ela é enviada por Òṣàlá para o reino de Òyá onde deveria aprender tudo sobre a arte de dominar os eguns.

Se nessa passagem, Ònírà foi enviada por Òṣàlá para conviver com Òyá, isso significa que ela não é Òyá e sim um òrìṣà com personalidade e características próprias cunhadas a partir de sua relação com os òrìṣà com os quais ela teve algum tipo de relação: Ògún, Òṣùn, Òṣàlá, Òṣóòsì, Ọmọlu entre outros.

Como saber se um Ònírà é caminho de Òyá (qualidade) ou um òrìṣà a parte? Fácil! Alguém já ouviu dizer que Topé se encontrou ou foi morar com Ipetu? Que Igbalé se encontrou com Bagá(n)? Que Biniká lutou ao lado de Padá? Muito provavelmente não; mas, no itan de Ònírà, está registrado que ela, por um tempo, foi morar com Òyá para aprender a arte de dominar os eguns.

Assim sendo, Topé, Bagá, Biniká, Padá, Igbalé e outras tantas são caminhos de Òyá (qualidades); enquanto Ònírà é um òrìṣà a parte e que compõe o panteão dos òrìṣà africanos. De igual modo, Ònírà não é Òṣùn, visto que com ela conviveu e teve uma relação de muita amizade.


FONTE DAS INFORMAÇÕES: Itan de Ònírà.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

ÒNÍRÀ: UMA GUERREIRA, UM RIO DE FOGO, UM BÚFALO, UMA BORBOLETA

Por Thonny Hawany

Itan de Ònírà

Ònírà era uma mulher jovem impulsiva, de gênio forte, intolerante, guerreira e que gostava muito de lutar. Ela se sentia bem ao ver a derrota de seus inimigos que caiam por terra, subjugados, a sua adaga.

Preocupados com o desfecho de tamanha impulsividade, o conselho de sábios de Irá foi até Òṣàlá, rei daquelas terras, e o pediu para intervir a fim de evitar que Ònírà continuasse com seus atos desmedidos de violência contra seus inimigos.

Òṣàlá, então, mandou chamar Ònírà que compareceu a sua presença imediatamente. Ao vê-la, o rei ficou preocupado e espantado com tanto sangue espalhado pelas vestes daquela mulher. Suas vestes eram rubras, tingidas a puro sangue.

Òṣàlá mandou que seus conselheiros mais próximos trouxessem grande quantidade de ẹfun e, de posse daquela substância mágica, soprou-a em abundância por todas as vestes de Ònírà, matizando-a de vermelho carmim com o branco cristalino do ẹfun.

À medida que Òṣàlá soprava o ẹfun, o vermelho das vestes de Ònírà esmaecia-se em tons de rosa, apagando de uma vez por todas, não só as consequências de sua impulsividade, mas também seu passado de intolerância aos inimigos.

Òṣàlá ordenou que Ònírà não mais subjugasse a mais ninguém e que jamais vestisse vermelho, ordenou também que ela fosse morar com Òṣùn. Antes de sair, Ònírà declarou a Òṣàlá que sentia prazer em lidar com a vida e com a morte.

Para resolver o impasse, Òṣàlá deu a ela o poder sobre os eguns e disse-lhe que, a partir de então, ela não mais poderia tirar a vida de nenhuma pessoa e que apenas deveria conduz os que morriam ao lugar de merecimento no òrun. Ela concordou e só pediu ao rei que não lhe tirasse sua adaga.

Obediente, Ònírà foi morar com Òṣùn. Tornaram-se muito amigas e, desde sempre, ficava sobre uma pedra, dentro do rio, admirando a beleza da senhora das águas doces. Um dia, adormeceu sobre essa mesma pedra, as águas subiram para além da superfície da pedra fazendo com que Ònírà se afogasse.

Vendo que perderia sua amiga, Òṣùn mergulhou para salvar sua jovem amiga. Ònírà estava desacordada e com aparência de morta... Para animá-la, Òṣùn fez o mais poderoso de seus encantamentos.

Ònírà animou-se do estado de quase morte e no mesmo momento transformou-se numa espécie de fogo líquido, uma lava incandescente que descia rio abaixo... Ònírà deixou de ser mulher para ser um rio de fogo.

Òṣùn, acreditando que Ònírà havia morrido, chorou muito e, às margem do rio, sentada absorta, pensava no que ia dizer para Òṣàlá que havia lhe confiada a vida e a transformação daquela mulher intempestiva.

Enquanto Òṣùn pensava no que ia dizer a Òṣàlá, percebeu que, à sua frente, sobrevoava, de modo frenético, uma linda borboleta de cor salmão com tons alaranjados que depois de exibir seu bailado elegante, voou em direção à parte mais densa da floresta.

Òṣùn seguiu a borboleta e viu, quando defronte a uma grande árvore, ela se metamorfoseou na jovem e bela Ònírà. Òṣùn chorou de imensa alegria e, perplexa, perguntou o que tinha ocorrido para que Ònírà, agora, fosse dona de tamanho poder.

Ònírà consolou Òṣùn e a agradeceu por ter feito o encantamento que, além de lhe devolver a vida, também lhe deu parte dos poderes dela. Ònírà, a partir dali, também poderia se transformar como o fazem as ninfas.

A partir daquele momento, Ònírà poderia ser um rio de fogo nas intempéries e nos seus momentos de íra... poderia ser um búfalo quando precisasse de velocidade, de força, de coragem... poderia ser uma borboleta quando estivesse feliz...

Transcorrido o acontecimento, Ònírà foi a Òṣàlá e lhe contou tudo. Apesar de tudo, ele ainda temia que toda essa mudança não apaziguasse a guerreira que habitava dentro do coração de Ònírà. Cauteloso, Òṣàlá ordenou que ela fosse morar com Òyá e com ela aprendesse tudo sobre a arte de dominar os eguns. Assim ela o fez.

Depois de longos anos ao lado de Òyá, Ònírà tornou-se também senhora dos eguns. Acreditando que já sabia tudo sobre a arte de dominar os mortos Ònírà partiu para novas aventuras e foi morar com Òṣóòsì com o qual aprendeu a caçar.

Em sínte, Ònírà tornou-se um òrìṣà de muitos poderes, de muitas artes e de muitos saberes, aprendeu a dominar a si mesma quando aprendeu a dominar o seu ímpeto. Aprendeu a guerrear, a caçar e a dominar os eguns. Adquiriu o poder de metamorfose da Òsùn. E, por isso tudo, é um dos òrìsà mais completos de que se tem notícia.

Observação: Li diversas versões desse itan (lenda africana) e conversei com pessoas versadas em cultura africana antes de chegar a essa versão que possui um pouco de minha parte Ònírà. Trata-se de uma visão mais direta e sem muitos rodeios.

EM TEMPO: Quero agradecer ao meu amigo e irmão ogá Silvestre pelo apoio, pela amizade e pelos bons conselhos, os quais têm me ajudado muito a me tornar um bàbálòrìsá mais consciente de minha missão terrena. Não posso me esquecer do meu amigo, irmão e compadre Emersom de Òyá que a quase 20 vinte anos me acompanha como conselheiro, contribuindo sempre com o meu crescimento.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

PRONOMES PESSOAIS DO CASO RETO DA LÍNGUA YORÙBÁ

Por Thonny Hawany



Os pronomes pessoais compõem um conjunto de pequenas palavras muito importantes para a efetivação de uma determinada língua. Todo idioma requer a existência dos sujeitos que praticam, que sofrem, ou que praticam e sofrem, ao mesmo tempo, a ação verbal.

Os pronomes pessoais do caso reto são aqueles que indicam as três pessoas do discurso. Para facilitar o entendimento, abaixo, apresentaremos um quadro comparativo entre os pronomes do yorùbá e os do português.

               São eles:


Flexão de Número
Yorùbá
Contração dos Pronomes
Português

Singular
Èmi
Mo
Eu
Ìwọ
O
Tu/Você
Òun
Ò
Ele

Plural
Àwa
A
Nós
Ẹyin
Vós/vocês
Àwon
Wọn
Eles

Na língua yorùbá, os pronomes pessoais sempre devem aparecer nas frases para que fique bem especificado quem fala, com quem fala e de quem/que se fala.


Na prática, os pronomes pessoais retos do yorùbá são sincopados, ou unidos a outras palavras por síncope, mas não deixam de estar presentes nos enunciados.


As frases do yorùbá devem primar, quase sempre, pela ordem direta, a saber: sujeito + verbo + complementos verbais. Veja o exemplo a seguir:


Sujeito
Verbo
Complemento Verbal
Òun
ni
Olùkó ti yorùbá.
Ele
é
professor de yorùbá.
            
Os pronomes sujeitos da língua yorùbá variam apenas em número, visto que o gênero, no caso dessa língua, é dado pelo contexto da frase.

A discussão sobre os pronomes pessoais não se esgota por aqui. Oportunamente, voltaremos a eles apresentando os usos e as peculiaridades significativas de cada um.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.


PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.

EM TEMPO: Este material faz parte de uma pesquisa bibliográfica e de campo que estamos fazendo sobre o uso da língua yorùbá nas comunidades de terreiro, na cidade de Por Velho e Ariquemes, no Estado de Rondônia.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

ORTOÉPIA DA LÍNGUA YORÙBÁ

Por Thonny Hawany

A ortoépia é a parte da gramática que se ocupa em estudar, classificar e orientar a forma correta de pronunciar os grupos fônicos de uma determinada língua. A ortoépia está, portanto, intimamente relacionada com os estudos sobre as maneiras utilizadas para a emissão das vogais e também da correta articulação dos sons consonantais. Segundo renomados gramaticistas, os erros cometidos contra a ortoépia são chamados de cacoepia e depõem, quase sempre, contra o falante que, segundo sua formação e posição social no grupo, deveria utilizar o dialeto padrão, ou seja: a chamada norma culta.

Com o propósito de não divagar sobre um assunto que merece praticidade, neste texto, vamos tratar apenas dos casos mais comuns e frequentes da ortoépia da língua yorùbá.

Vejamos os casos que merecem destaque:

a)    As vogais “e” e “o” que podem ser “ẹ” e “ọ”;
b)    O consoante “s” que pode também ser “ṣ”;
c)    O fenômeno “gb” e sua pronuncia ideal;
d)    A pronúncia correta do “p”;
e)    A pronúncia do “j” e do “g”;
f)     A pronúncia do “h” e do “r”;
g)    A pronúncia das vogais nasais no final de palavras.

Equivocadamente, alguns autores estudam o ponto (.) colocado embaixo das vogais “ẹ” e “ọ” como sendo uma questão de acentuação gráfica. Isso não procede. Esse fenômeno é nitidamente uma questão de ortoépia e não de prosódia (estudo das sílabas átonas e tônicas de uma lígua).

Na palavra ọdẹ (caçador), a letra “ẹ” deve ser pronunciada como em café. A mesma letra, sem o ponto, deve ser entonada como na palavra bebê.

Na expressão Ọlọ́ọ̀nọ̀n (Senhor do caminho) e também na palavra ọdẹ, todas as letras “ọ” possuem o ponto subjacente indicando que o fonema deve ser lido e pronunciado como nas palavras cipó e vovó do português, ou seja, com o timbre aberto. Já o “o”, sem o ponto embaixo, portanto, deve ser pronunciado como na palavra vovô, em português.

No caso da letra “ṣ” com o ponto subjacente, o fonema deve ser lido com o som do “x” ou do “ch” empregados nas palavras xadrez e chuchu da língua portuguesa. A palavra Èṣù (divindade), em razão do ponto sob o “ṣ”, deve-se ser pronunciada como sua tradução para o português: Exu. Por sua vez, o “s”, sem o ponto sobposto, deve ser pronunciado com o som que tem na palavra sapo também do português.

Para ampliar o entendimento do uso dos fonemas /s/ e /ʃ/, tomemos o nome do grande caçador Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, no qual estão, nitidamente, expressos os dois fenômenos anteriormente mencionados. No aportuguesamento da palavra: Oxossi, o uso dos fonemas /ʃ/ e /s/, nesta sequência,   fica evidente. Ficou claro? Foneticamente, as palavras Èṣù e Ọ̀ṣọ́ọ̀sì devem ser grafadas assim: /ɛ’ʃu/ e /ɔ’ʃɔsi/. Então vamos adiante!

Certa feita, alguém me disse que o “g” antes de “b” não deveria ser pronunciado nas palavras do yorùbá. Fiquei intrigado, mas guardei esse entendimento por muito tempo. Ao ouvir o saudoso Altair T’ògún em “Cantando para os Orixás”, desconfiei daquele entendimento prévio que tinha sobre o encontro “gb” e para minha surpresa descobri que não eram duas letras, mas dois grafemas que equivaliam a uma única letra do alfabeto. A esse fenômeno, eu prefiro chamar de encontro que de letra como faz a maioria dos autores que li pesquisando sobre o assunto. O encontro “gb” gera um som que não possui correspondente em língua portuguesa.

Em síntese, no encontro “gb”, as duas letras são pronunciadas. O “g” com menor intensidade que o “b” e bem lá no fundo da garganta. Na frase: Ẹ ku aró gbogbo! (Bom dia a todos!), a palavra gbogbo deve ser, foneticamente, falada assim: /gbo’gbo/ e não /bobo/. A palavra ẹgbẹ deve ser falada desta forma: /ɛg’bɛ/ e não /ɛ’bɛ/. Entendeu?

Nas palavras em que o “p” figura como fonema, sua pronúncia ocorre como se ele compusesse uma sílaba com a letra “u”, mais a vogal. Assim: (pua, pue, puẹ, pui, puo, puọ, puu). Na expressão: aṣọ pupa. (Roupa vermelha), a palavra pupa deve ser lida foneticamente assim: /puu’pua/. De igual modo a palavra Igi-òpe, palmeira sagrada (dendezeiro), lê-se /igio’pue/.
Havendo vencido satisfatoriamente as discussões sobre o “p”, vamos trocar de assunto, mas ainda nos mantendo nas questões de ortoépia. Deste modo, o “j” das palavras escritas em yorùbá deve ser lido como se estivesse antecedido pela letra “d”, ou seja: como se fosse um conjunto formado pelas duas letras “d+j” e cujo fonema corresponde deve ser /dʃ/. Assim sendo, as expressões ìbeji, Yẹmọnja, mo júbà devem ser lidas assim: /i’bedʃi/, /iɛmõ’dʃa/ e /mo ‘dʃuba/. Creio que isso foi suficiente para o entendimento de todos. Vamos continuar.

Assim como a letras “j”, a letra “g” pode constituir um problema de ortoépia para os falantes de língua portuguesa que querem aprender o yorùbá como segunda língua. Vejamos! Sobre o “j”, nós já falamos no parágrafo anterior, resta então falar sobre a letra “g” que, na língua yorùbá, por sua vez, independente da vogal que a acompanhe na sílaba, nunca tem o som de “j”. Assim o sendo, todas as vezes que aparecer um “g” numa palavra, deverá ser lido como o “g” da palavra gato em português. Exemplo: Ògún (Divindade), àgó (perdão, licença). Ficou clato? Então vamos falar de outro assunto.

 As vogais tônicas nasais finais constituem um fenômeno linguístico que pode suscitar muitas dúvidas ao falante desavisado. Essas vogais (a exemplo de “an”, “in” e “on”), quando escritas, perdem o “n” nazalizador; no entanto continuam, na fala, sendo entonadas de forma nazal. Assim sendo, as palavras ọ̀gá (cargo, chefe, mestre), omi (água), ọ̀nà (caminho) devem ser pronunciadas, respectivamente, /ɔ’gã/, /o’mĩ/ e /ɔ’nã/.

Ainda na ceara da ortoépia, cabe, por último, uma discussão sobre a letra “h” que em português não tem som algum. Na língua yorùbá, o “h” tem som aspirado e deve ser pronunciado da mesma forma que o dígrafo “rr” da língua portuguesa na palavra carro /kaRu/. As palavra hun (tecer) e hihu (grito) devem ser lidas respectivamente da seguinte forma: /Rũ/ e /RiRu/.

            Em suma e com base em tudo o que vimos a respeito da ortoépia da língua yorùbá, compreendemos que uma língua não serve, somente, como instrumento de comunicação em sociedade, mas, acima de tudo, como delimitadora das diferenças estabelecidas no seio desta mesma sociedade. Falar usando o dialeto culto ou as demais formas denota o que o falante é, o que ele sabe, como sabe e o quanto sabe sobre si, sobre o meio e sobre o outro. Espero que este texto sirva para melhorar a sua condição, leitor, como falante dentro do grupo em que esteja inserido.

            Em síntese, espero ainda que essas noções de ortoépia da língua yorùbá sirvam como reflexão e ponto de partida para pesquisas mais profundas, visto que, em nenhum momento, pretendemos, neste texto, exaurir o tema.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
BENISTE, José. Òrun àye: o encontro de dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.
OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed., Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.
WIKIPÉDIA. Língua iorubá. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_iorub%C3%A1. Aceso em: 14/07/2015. 

EM TEMPO: Este material faz parte de uma pesquisa bibliográfica e de campo que estamos fazendo sobre o uso da língua yorùbá nas comunidades de terreiro, na cidade de Por Velho e Ariquemes, no Estado de Rondônia.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

ACENTUAÇÃO E ENTONAÇÃO NA LÍNGUA YORÙBÁ

Por Thonny Hawany


Para refletir sobre os conceitos mais profundos da prosódia de uma língua, é preciso antes esclarecer dois conceitos que julgamos importantes para que as proposições futuras sobre o assunto fiquem claras. São eles: entonação e acentuação. A entonação é o nome que se dá à intensidade com que um indivíduo pronuncia as sílabas de uma palavra. Trata-se, portanto da variação de intensidade que se emprega ao falar. A acentuação define-se como sendo o ato de acentuar palavras na fala ou na escrita.

Existem dois tipos de acentuação: a tônica e a gráfica. A acentuação tônica é a que determina qual sílaba de uma palavra, com mais de duas sílabas, deve ser pronunciada com maior intensidade. A acentuação gráfica está relacionada com a colocação (ou não) de sinais diacríticos sobre as vogais para determinar, na fala, que sílaba deve ser pronunciada com maior ou menor intensidade.

Cabe ainda lembrar que os dois conceitos estão intimamente ligados, visto que a acentuação gráfica ajuda a compreender como se deve entonar as sílabas de uma palavra. A acentuação garante a melodia da palavra, da frase e da língua como um todo.

Havendo feito os esclarecimentos preliminares, passemos, pois, ao objeto deste texto que é a acentuação e a entonação das palavras no idioma yorùbá.

Diferente das mais conhecidas línguas do planeta, o yorùbá tende a acentuar, graficamente, mais de uma sílaba das palavras que compõem o seu vernáculo.

A acentuação gráfica do yorùbá, além de informar a intensidade que deve ser utilizada na pronúncia das sílabas de uma palavra, também pode indicar a diferença de significado existente entre dois ou mais signos linguísticos com grafias semelhantes. Neste caso, o acento não tem função demarcadora da entonação, mas de diferenciar os significados das palavras. Em português, chamamos esse fenômeno de acento diferencial.

Como exemplo de acento diferencial em yorùbá, tomemos as palavras àṣẹ́, aṣẹ́ e àṣẹ. Da esquerda para a direita, a primeira palavra (àṣẹ́) significa menstruação, a segunda (aṣẹ́) significa coador e a terceira (àṣẹ) significa o poder emanado dos òrìṣà (divindade cultuada pelo povo yorùbá). Assim sendo, o uso indevido da acentuação gráfica pode causar dúvidas, ruídos e, por que não dizer: até constrangimentos.

Os acentos gráficos usados na língua yorùbá são: o agudo (´); o grave (`) e o til (~), este último encontrado, segundo alguns autores, na escrita antiga, como se pode ver na grafia da palavra ãṣẹ̀ (porta larga) que, mais tarde, passou a ser escrita com duplo “a”, assim: ààṣẹ̀. No idioma yorùbá, há também as sílabas sem nenhum acento e que devem ser pronunciadas com entonação média.

A não observação dos acentos das palavras do yorùbá tem provocado traduções absurdas de textos escritos nessa língua, especialmente, daqueles usados na ritualística religiosa.

Os acentos gráficos (ou a falta deles) para denotar a forma como devemos (ou não) pronunciar as sílabas e as letras da língua yorùbá podem ser classificados da seguinte forma:

O acento agudo (´) é aquele que indica sempre a sílaba (ou as sílabas) que devem ser pronunciadas com maior intensidade nas palavras. Vejamos! Na frase: Bàbá mi ni àìdá (Meu pai é severo), a palavra bàbá possui dois acentos: o grave que indica a sílaba menos intensa e o agudo que indica a sílaba mais intensa, ou seja: a sílaba com maior tonicidade e, por isso, deve ser entonada mais fortemente. A palavra àìdá tem dois acentos graves e um agudo, ou seja, duas sílabas de intensidade fraca e uma de intensidade forte.

O acento grave (`), como já vimos, serve para marcar a entonação mais fraca de uma sílaba numa palavra. Na expressão: mo júbà (meus respeitos), a sílaba de entonação mais forte é “jú” e não o “bà” como se vê, na prática, na maioria das casas de Candomblé.

       A falta de acento sobre as vogais também é informação prosódica em yorúbá. Quando a sílaba não tem acento, isso significa que deve ser pronunciada com média intensidade em relação às demais que podem ser de forte ou de fraca intensidade. Vejamos! Na frase: Èsú ni Olúwa mi. (Exu é o meu senhor.), a palavra olúwa tem três sílabas: o-lú-wa. Nitidamente se pode notar que duas dessas sílabas não têm nenhum acento, por isso devem ser pronunciadas com entonação média em relação à outra. Há casos em que há três entonações diferentes numa só palavra. Veja o que ocorrer em Adùpẹ́ ọrẹ́ mi! (Obrigado meu amigo), a palavra a-dù-pé tem três sílabas e cada uma delas com uma intensidade diferente: média, baixa e alta consecutivamente. Assim sendo, a referida palavra deve ser lida: aduPÉ.

Em face do exposto, afirmamos que entender o funcionamento dos sinais diacríticos da língua yorùbá, especialmente aqueles relacionados à acentuação gráfica, constitui condição primordial para a compreensão da pronúncia correta das palavras a fim de promover uma comunicação livre dos ruídos e dos equívocos.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
BENISTE, José. Òrun àye: o encontro de dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.
OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed., Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.
WIKIPÉDIA. Língua iorubá. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_iorub%C3%A1. Aceso em: 14/07/2015.

EM TEMPO: Este material faz parte de uma pesquisa bibliográfica e de campo que estamos fazendo sobre o uso da língua yorùbá nas comunidades de terreiro, nas cidades de Por Velho e Ariquemes, no Estado de Rondônia.


terça-feira, 14 de julho de 2015

ALFABETO YORÙBÁ


Por Thonny Hawany

Toda língua possui um conjunto de grafemas (signos, letras) que possibilita o registro gráfico das informações culturais de um povo. Isso não é diferente com o povo yorùbá. Sua língua, também chamada yorùbá é riquíssima em signos, sons e significados.

Entender como funciona o registro gráfico de uma língua é a base para compreender os seus demais mecanismos linguísticos e gramaticais. Por isso, saber como usar o alfabeto yorùbá, é condição sine qua non para aprender os fundamentos básicos dessa língua que tanto nos instiga. 

            O alfabeto da língua yorùbá é composto de vinte e cinco letras divididas em sons consonantais e vocálicos, assim como no português.

As letras de uma língua são chamadas de grafemas e os sons que produzimos, quando pronunciamos os grafemas, são chamados de fonemas.

Para facilitar o aprendizado e a compreensão clara do alfabeto da língua yorùbá, abaixo, apresentaremos um quadro contendo os grafemas da língua yorùbá e seus respetivos fonemas.

GRAFEMAS
FONEMAS
A,a
/a/
B,b
/bi/
D,d
/di/
E,e
/e/
Ẹ,ẹ
/ɛ/
F,f
/fi/
G,g
/gi/
GB,gb
/gbi/
H,h
/Ri/
I,i
/i/
J,j
/dji/
K,k
/ki/
L,l
/li/
M,m
/mi/
N,n
/ni/
O,o
/o/
Ọ,ọ
/ɔ/
P,p
/pui/
R,r
/ri/
S,s
/si/
Ṣ,ṣ
/xi/
T,t
/ti/
U,u
/u/
W,w
/iu/
Y,y
/ii/

Como se pode ver no quadro acima, na língua yorùbá não existem as letras C, Q, V, X e Z. Os sons do C, como conhecemos em português, são grafados com “k” (casa) e com “s” (doce). O som de Q é grafado com “k”. O som de “x” é grafado com “ṣ”. O “v” e o “z” não são sons frequentes na língua.

Outra peculiaridade que gostaríamos de mencionar é o grafema “gb” que, embora seja escrito com duas letras, equivale a apenas uma. Na pronúncia, o “gb” deve ser pronunciado de modo a produzir os dois sons, ou seja, os sons do “g” que é igual a /g/ e do “b” que é igual a /b/, ou seja: /gb/.

Em face do que foi falando anteriormente, esse fenômeno linguístico não se equivale aos dígrafos consonantais do português, a exemplo de “rr”, “ss”, “sc”, “sç”, “ch”, “nh”, “lh” “qu” e “gu”.

Os dígrafos da língua portuguesa, embora sejam escritos com duas letras, são pronunciados numa só emissão de voz, compondo apenas um fonema. Por isso que o “gb” do yorùbá não se equivale aos nossos dígrafos já que, ao ser pronunciado, é possível ouvir os dois sons distintos de “g” e de “b”. Entenderam?

Em yorùbá, temos as chamadas vogais nasais que equivalem aos nossos dígrafos vocálicos, são elas:

VOGAIS
FONEMAS
AN,an
/ã/
EM,em
/ẽ/
IN,in
/ĩ/
ON,on
/õ/
UM,um
/ũ/

A letra “N”, empregada depois das vogais, só serve como indicativo sonoro. Necessariamente não constitui um fonema em si mesma.

A vogal nasal “on” aparece sempre depois das consoantes B, F, GB, M, P e W nas palavras. Na frase “Èsú wa jú wo mòn mòn ki wo Odára”, a palavra “mòn” é um exemplo do uso. A vogal “an” é usada com as demais consoantes, a exemplo da palavra “inán” expressa na frase “Inán inán mo júbà e e mo júbà”.

As letras “n” e “m” em vogais nasais finais são sempre suprimidas na escrita, mas não na pronúncia. Exemplos ogá(n), iná(n), omi(n).


VOCABULÁRIO:

Iná(n): fogo
mòn: saber, entender, conhecer
ogá(n): cargo masculino no Candomblé
omi(n): água
yorúbà: povo negro do grupo sudanês, nome da língua desse povo.

TRADUÇÃO DAS FRASES:
“Èsú wa jú wo mòn mòn ki wo Odára”: Exu nos reconhece e sabe que o culto é bom.
“Inán inán mo júbà e e mo júbà”: Meus respeitos ao Exu do Fogo.



REFERÊNCIAS:


BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
BENISTE, José. Òrun àye: o encontro de dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.
OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed., Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.
WIKIPÉDIA. Língua iorubá. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_iorub%C3%A1. Aceso em: 14/07/2015.

EM TEMPO: Este material faz parte de uma pesquisa bibliográfica e de campo que estamos fazendo sobre o uso da língua yorùbá nas comunidades de terreiro, nas cidades de Por Velho e Ariquemes, no Estado de Rondônia.