quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ÀDÚRÀ, ORÍKÌ, ỌFỌ̀, ÌTÀN E ORIN

Por Thonny Hawany

Introdução

O Candomblé é uma religião de tradição oral, como já sabemos; no entanto, os nossos ancestrais, desde os primórdios e, apesar de todas as intempéries porque passaram, conseguiram guardar muito conhecimento para as gerações atuais.

A falta de interesse da maioria dos adeptos do Candomblé em estudar a cultura dos seus descendentes africanos, fez com que uma parte bastante expressiva dessa comunidade apenas decorasse palavras e frases desconexas que, geralmente, são repetidas misturadas ao português compondo um dialeto muitas vezes ininteligível para quem observa de fora.

Não é raro encontrar, nas comunidades de terreiro, pessoas que sabem de cor e salteado muitos àdúrà(s)[1], oríkì(s), ọ̣(s), ìtàn(s) e orin(s), no entanto, não são capazes de traduzir a maioria das palavras contidas nos textos, fato que culmina no fenômeno de falar e de cantar o que não se sabe o significado. De igual modo, não são raras as pessoas que sequer sabem a diferença entre àdùrà, oríkì, ọ̣, ìtàn e orin.

Contemporaneamente, tem-se aumentado o número de pessoas preocupadas em aprender não só os fundamentos religiosos do Candomblé, mas também a cultura iorubana com especial destaque para os costumes e a língua, e isso é algo que consideramos muito importante para a evolução das religiões de matriz africanas no Brasil.

Não conhecer, minimamente, a língua materna do povo de onde a religião foi originada pode levar muitos sacerdotes e sacerdotisas do Candomblé a cantarem e a recitarem louvores que muitas vezes não significam, exatamente, o que se pretende significar.

Apesar do universo de pesquisa que nos possibilita o yorùbá e seus usos nos terreiros de Candomblé, neste estudo, restringir-nos-emos apenas a uma simples reflexão a respeito das definições de àdúrà, oríkì, ọ̣, ìtàn e orin. Assim sendo, adiante trataremos do assunto procurando não deixar de fora os tão preciosos exemplos que muito nos ajudam a compreender melhor as teorias.

Àdúrà

O àdúrà é o nome pelo qual as rezas cantadas aos òrìṣà(s) são denominadas. O àdúrà é um tipo de louvor cantado, quase sempre, entoado de forma mais cadenciada e tem como principais objetivos clamar por socorro; agradecer por dativas recebidas; solicitar auxílio; pedir perdão, exaltar atributos e características dos òrìṣà(s), entre outros. O àdúrà evoca a energia do sagrado. Segundo Beniste (2014) em seu dicionário yorubá/português: àdúrà é o mesmo que oração, súplica. Vejamos, a seguir, o àdúrà do orixá Ọbà, nele é possível encontrar, de modo claro, dois dos objetivos acima enumerados: o primeiro, de suplica e o segundo, de exaltação de atributos e características da divindade.

Àdúrà ti Ọbà:
Ọbà mo pẹ o o
Ọbà mo pẹ o o
Sare wa jẹ mi o
Ọbà ojowu aya Ṣàngó sare
Wa gbọ àdúrà wa o
Enì n wa owó, ki o fún ni owó
Enì n wa ọmọ, ki o fún ni ọmọ
Enì n wa àláfíà, ki o fún ni àláfíà
Sare wa jẹ mi o.

Tradução:
Ọbà eu te chamo
Ọbà eu te chamo
Venha logo me atender
Ọbà, mulher ciumenta esposa de Ṣàngó, venha correndo
Ouvir a nossa súplica
A quem quer dinheiro, dá dinheiro
A quem quer filhos, dá filhos
A quem quer saúde, dá saúde
Venha logo me atender.

Oríkì

O oríkì, assim como o àdúrà, é uma espécie de texto utilizado para louvar os òrìṣà(s), só que de forma recitada como os poetas e recitadores fazem com as poesias. A palavra oríkì, segundo os dicionários de língua yorùbá, significa poesia. Trata-se de um texto escrito em verso com a finalidade de louvar os ancestrais divinizados. O oríkì tem como objetivo, quase sempre, apresentar atributos e características do orixá, exaltar seus feitos e suas qualidades, mas isso não significa que não se possa utilizá-lo para clamar, pedir, solicitar, agradecer. O oríkì é o texto utilizado para o encantamento das forças ancestrais nos seus assentamentos e ojubós. Vejamos, como exemplo, um conhecido oríkì do òrìṣà Èsù. Conforme o dicionário yorubá/português: oríkì é o mesmo que “título, nome, louvação que ressalta fatos de uma sociedade, de uma família ou de uma pessoa e, igualmente, seus desejos” (BENISTE, 2014).

Òríkì ti Èsù:
Èsù ọ̀ta òrìṣà
Oṣètùrá ni l’orukọ bàbá mọ́ ọ́
Alágogo ijà l’orukọ íyá npẹ́ o
Èṣù Ọ̀dàrà, ọmọkùnrin Idọ́lófin
O lé sónsó sóri ori esẹ̀ ẹlẹ́sẹ̀
Kọ̀ jẹ́ kọ́ jẹ́ ki ẹni njẹ́ gbẹ e mi
A kìì lówó lái mu ti Èṣù kúrò
A kìì láyọ̀ lái mu ti Èṣù Kúrò
Aṣòntún ṣe òsì làì ní ìtìjú
Èsù ápáta somo olómo lénu
O fi okúta dipò iyó
O fi okúta dipò iyó
Lóògemo òrun a nla kálu
Pàápa-wàrá, a túká máṣe ṣà
Èṣù máṣe mi, omo elómiran ni o sé
Èṣù máse, Èṣù máse, Èṣù máse

Tradução: 
Èṣù que é a pedra fundamental entre os òrìṣà(s)
Oṣètùrá é o nome pelo qual é chamado pelo pai
Alágogo é o nome pelo qual é chamado pela mãe
Èṣù bondoso, filho da cidade de Idólófin
De cabeça pontiaguda, está sempre na retaguarda
Não come e também não permite que comamos
Quem tem riqueza deve reservar a parte de Èṣù
Quem tem felicidade deve reservar a parte de Èṣù
Ele fica dos dois lados sem constrangimento
Montanha de pedra que faz o filho falar o que não quer
Aquele que usa pedra em lugar de sal
Filho do céu cuja grandeza está em todos os lugares
Aquele que fragmenta o que não se pode nuca mais unir
Èsù não me faça mal, faça ao filho do outro
Èsù não me faça mal, não me faça mão, não me faça mal

Nos oríkì(s), além das proezas, das qualidades, das características e dos feitos dos òrìsà(s), e possível encontrar a base para a maioria dos ritos praticados nas religiões de matriz africana de origem yorùbá. Essa não uma característica só do oríkì, mas também do àdúrà, do ọ̣, do ìtàn e do orin.

Ọ̣

A palavra ọ̣ em yorùbá quer dizer encantamento, magia, potencialização. É a palavra na qual estão resumidos os encantamento que podem acontecer por intermédio da expressão recitada ou cantada. O ọ̣ pode estar contido numa única palavra, ou num texto formado por muitas palavras. O principal segredo do ọ̣ é que não basta saber a palavra, é preciso estar preparado, é necessário ter o dom para usá-lo. Se o indivíduo não estiver com suas energias alinhadas às energias do sagrado, não lhe adianta conhecer e saber pronunciar o ọ̣. A vida contemporânea atribulada, cheia de estresse, de vais-e-vens e as relações confusas entre o humano e o sagrado fizeram com que esse poder fosse reduzido a um número ínfimo de pessoas privilegiadas. Todos nascemos com o dom de transformar palavras em encantamentos e à medida que nos doamos e nos aproximamos mais e mais do orixá, mais esse poder aumenta. Para o dicionário yorubá/português, o ọ̣ é um “feitiço, encantamento feito para dar alívio à dor” (BENISTE, 2014). O ọ̣ é muito comum nos rituais de folhas. Pierre Veger (on line), no seu artigo “A sociedade ẹgbẹ́ ọ̀run dos àbíkú, as crianças nascem para morrer várias vezes”, ao falar sobre o encantamento das folhas utilizadas no rito de àbíkú, menciona “ewé idí[2]”, cujo ofò de encantamento é: “ewé idí lórí kí ọnò ọ̀run tẹ̀mí odi”[3].

Como já vimos, o ọ̣ é um dom dado por Òlòdùmarè; no entanto, é um bem preciso (um poder) que não deve ser usado para fazer o mal. Devemos sempre nos lembrar da lei da ação e da reação. Aquele que faz o bem recebe o bem em troca; aquele que faz o mal, o mal receberá. Os ofó(s) poderão ser divididos segundo a intenção de quem o utiliza. Essa importante informação a respeito da divisão dos ọ̣(s) em categorias segundo a intenção de cada sujeito, encontramos em Raji (1991) e em AJAYI (on line).

ọfọ̀ iba para o pagamento de homenagem;
ọfọ̀ afose para o que é dito acontecer;
ọfọ̀ aforan para escapar de infortúnios;
ọfọ̀ afero para atrair pessoas/clientes/pacientes;
ọfọ̀ aparo para servir como antídoto de veneno;
ọfọ̀ arobi para se livrar de calamidades;
ọfọ̀ awure para chamar boa sorte;
ọfọ̀ isoye para ativar memória;
ọfọ̀ maadarikan para a auto defesa;

Os encantamentos utilizados para o mal e para a destruição têm os seguintes nomes: ogede e aasan conforme assinala Bade Ajayi em seu artigo intitulado de ”The stylistic significance of focus constructions in the ofo corpus”. Sobre isso não falaremos neste texto.

Ìtàn

Conforme Beniste (1991), a palavra ìtàn se traduz pelas expressões portuguesas: história, mito e biografia. No entanto, seu significado religioso vai muito além de meras histórias e de mitos fantasiosos. Em quase todas as civilizações do mundo, as epopeias e os poemas épicos serviram como os primeiros registros do homem a seu respeito, a respeito dos seus grandes feitos e sobre os lugares onde esteve inserido e atuante. Quem não ouviu falar em “Ilíada” e “Odisseia” de Homero e em “Os Lusíadas” de Luiz Vaz de Camões? Estes são apenas três grandes exemplos dentre as dezenas de outros textos autorais e anônimos dos quais se tem conhecimento. Assim como os poemas épicos, o ìtàn, por sua vez, cumpre o papel de falar sobre o homem, sobre os seus feitos heroicos (ou não), sobre os lugares por onde passou e viveu, mas também a respeito de sua relação com o sagrado e o divino[4]. Não existe um livro sagrado que contemple todos os dogmas do Candomblé e das demais religiões de matriz africana. O Candomblé é uma religião consuetudinária. Suas leis, seus dogmas são aplicados segundo os costumes de cada sociedade, de cada tribo, de cada família. Vejamos, a seguir, um exemplo de ìtàn, no qual, em face de um combinado entre Ṣàngó e Ọya, Ọ̀sányìn se vê obrigado a dividir a propriedade das folhas com os demais òrìṣà(s).

Ọ̀sányìn recebera de Òlòdùmaré o segredo das folhas. Ele sabia que algumas delas traziam a calma ou o vigor. Outras, a sorte, as glórias, as honras, ou, ainda, a miséria, as doenças e os acidentes. Os outros orixás não tinham poder sobre nenhuma planta. Eles dependiam de Ọ̀sányìn para manter a saúde ou para o sucesso de suas iniciativas. Ṣàngó, cujo temperamento é impaciente, guerreiro e imperioso, irritado com esta desvantagem, usou de um ardil para tentar usurpar, de Ọ̀sányìn, a propriedade das folhas. Falou do plano à sua esposa Ọya, a senhora dos ventos. Explicou-lhe que, em certos dias, Ọ̀sányìn pendurava, num galho de ìrókò, uma cabaça contendo suas folhas mais poderosas. “Desencadeie uma tempestade bem forte num desses dias”, disse-lhe Ṣàngó. Ọya aceitou a missão com muito gosto. O vento soprou a grandes rajadas, levando o telhado das casas, arrancando as árvores, quebrando tudo por onde passava e, o fim desejado, soltando a cabaça do galho onde estava pendurada. A cabaça rolou para longe e todas as folhas voaram. Os òrìṣá(s) se apoderaram de todas. Cada um tomou-se dono de algumas delas, mas Ọ̀sányìn permaneceu senhor do segredo de suas virtudes e das palavras que devem ser pronunciadas para provocar sua ação. E, assim, continuou a reinar sobre as plantas, como senhor absoluto. Graças ao poder (àṣẹ) que possui sobre elas (VERGER, 1997).

Embora, a maioria dos ìtàn(s) pareçam histórias fabulosas, há sempre uma lição de vida a ser apreendida. Os ìtàn(s) são utilizados pelo povo yorùbá para formar, nos mais jovens, os conceitos de comportamento e para registrar e exaltar os feitos de ancestrais sacralizados. Os ìtàn(s) que personificam animais e coisas são usados, quase sempre, como grandes metáforas que servem para a construção de condutas sociais bem verdadeiras.

Orin

A palavra orin significa cântico (cantiga) e serve para se referir a qualquer música, quer seja profana, quer seja sagrada. No caso das religiões de matriz africana, com ênfase para as de origem yorùbá, os orin(s), por assim o ser, são o conjunto de louvores que compõem o ṣiré (festa) de um ou de vários òrìṣà(s). A seguir, como exemplo, apresentaremos um orin para o òrìṣà Èṣù, retirado de Oliveira (2012).

Orin ti Èṣù
A pàdé Ọlọ́ọ̀nọ̀n e mo júbà Òjíṣẹ́
Áwa ṣé awo, àwa ṣé awo, àwa ṣé awo
Mo júbà Òjiṣẹ́.

Tradução:
Vamos encontrar o Senhor dos Caminhos.
Meus respeitos àquele que é o mensageiro.
Vamos cultuar, vamos cultuar, vamos cultuar.
Meus respeitos àquele que é o mensageiro.

Os orin(s) evocam os òìṣà(s) no dia do seu ṣiré (festa). Cada òrìṣà possui o seu conjunto de orin(s), cujo número total não se tem notícia. No dia das festas, vê-se frequentemente, cantar três, sete, quatorze ou vinte cantigas para cada òrìṣà, no entanto, é possível que o ṣiré seja feito com outro número qualquer de cantigas a depender do òrìṣà celebrado.

Considerações finais

Conforme salientamos no início do texto, a nossa intensão não foi dissertar com profundidade a respeito dos temas: àdúrà, oríkì, ọ̣, ìtàn e orin, mas apresentar, de forma pedagógica, algumas breves noções acompanhadas de exemplos que possam elucidar o que cada palavra significa, bem como o que cada uma representa para o universo religioso dos cultos afros no Brasil, com especial destaque para aqueles descendentes do povo yorubá.

De igual modo, queremos deixar registrado que, por nenhuma forma, nossa pretensão foi esgotar o tema. Até porque, fazê-lo, não seria possível, tendo em vista a extensão que cada assunto possui e a amplitude requerida para que sejam tratados de forma substancial.

Em face do exposto, acreditamos ter atingido o nosso objetivo em apresentar minimamente as diferenças básicas entre àdúrà, oríkì, ọ̣, ìtàn e orin. De igual modo, queremos deixar consignado que aguardamos a contribuição dos nossos atentos leitores a fim de refutar, corrigir e acrescentar dados que possam melhorar este texto.

Referências:

AJAYI, Bade. The stylistic significance of focus constructions in the ofo corpus. Disponível em: http://studylib.net/doc/7507743/the-stylistic-significance-of-focus-constructions. Acesso em: 16/02/2017.

BENISTE, José. Dicionário yorubá / português. 2.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014

OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2012.

RAJI, S. M. Ìjìnlẹ̀ ọfọ̀, ògèdè àti àásán. Nigéria/ìbàdàn: Onibọnoje, 1991.

VERGER, Pierre Fatumbi. A sociedade egbe òrun dos àbíkú, as crianças nascem para morrer várias vezes. Disponível em: Disponível em: https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/viewFile/20825/13426. Acesso em: 16/02/2017.


VERGER,  Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.



Notas:

[1] . Na língua yorùbá, o “s” não funciona como desinência de plural. Assim sendo, o seu uso entre parênteses neste texto, denota aportuguesamento da regra de concordância nominal, sem, no entanto, deformar a palavra original.
[2] . Folha de amendoeira.
[3] . Tradução: Folha idí, diga que o caminho do ọ̀run está fechado para mim.
[4] . Embora as expressões ‘sagrado’ e ‘divino’ pareçam sinônimas, nesta obra não as vemos desta forma. Usamo-las com a seguinte perspectiva: todo divino é sagrado, mas nem todo sagrado é divino. O divino é próprio de Deus (Òlòdùmarè). Os òrìsà(s) são sagrados, mas não são deuses. O Candomblé é religião monoteísta, possui um único Deus, mas muitos seres sagrados e sacralizados.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ÒRÌSÀ ORÍ E SUAS INTERFACES



Por Thonny Hawany

RESUMO: Este texto pretende discorrer de modo sucinto sobre o orixá Ori e suas interfaces. O objetivo geral consiste em apresentar uma visão panorâmica a respeito de Ori assinalando o seu conceito, sua origem sagrada, suas subdivisões e sua importância como mediador entre homem e o sagrado. A metodologia utilizada para a elaboração deste artigo foi composta de síntese e compilação de dados obtidos a partir da experiência aliada à leituras de obras que versam sobre o tema. Por fim, concluímos ter alcançado as metas objetivadas no roteiro inicial deste trabalho, haja vista que conseguimos apresentar uma visão substancial a respeito do orixá Ori e suas interfaces.

Palavras-chaves: Orixá Ori, cabeça, homem, sagrado, Candomblé, religião

ABSTRACT: This text intends briefly to describe the orisha Ori and his interfaces. The general objective is to present a panoramic view of Ori pointing out his concept, sacred origin, subdivisions and importance as a mediator between man and the sacred. The methodology used for the elaboration of this article was composed of synthesis and compilation of data obtained from my background allied to the readings of works that deal with the theme. Finally, I conclude that I have achieved the goals set out in the initial script of this paper, since I have been able to present a substantial vision regarding orisha Ori and its interfaces.

Keywords: Orisha Ori, head, man, sacred, Candomblé, religion

Introdução

Neste texto, dedicar-nos-emos a falar de Orí, o mais importante òrìsà entre aqueles que determina a existência humana, quer seja na Terra, quer seja onde ela exista. A expressão orí é utilizada pelo povo iorubano e seus descendentes para significar a cabeça física do homem, mas também para denotar sua essência espiritual conforme veremos mais adiante.
Segundo um importante adágio iorubano: “ko sí òrìsà tí i dá ni gbè léhìn Orí eni”, cuja tradução literal é: nenhum òrìsà abençoa uma pessoa antes de seu Orí”, o Orí é o primeiro òrìsà a ser louvado desde o nascimento do indivíduo. É ele quem nos acompanha desde a nossa concepção.

Nas discussões que pretendemos apresentar neste pequeno artigo, ater-nos-emos  a uma visão panorâmica do òrìsà Orí e suas interfaces sem, no entanto, enveredar-nos pela esfera onde estão assentados os mais recônditos segredos que envolvem o culto a Orí e a sua ritualística. Entendemos que os segredos e fundamentos de Orí devem ser apreendidos pelos iniciados no contato físico com os mais velhos no dia a dia, nos terreiros e sociedades de àse.

Por uma questão de preferência, as palavras em iorubá que forem utilizadas neste texto, na medida do possível, serão grafadas como recomendam as gramáticas e os dicionários da língua. Entendemos que, desta forma, os nossos leitores, além de acessarem as discussões sobre o mote principal, ainda terão acesso a legítima escrita das palavras que engrossam o rico vocabulário praticado nas comunidades de terreiro.

Por fim, registramos que a palavra orí será grafada neste artigo de duas formas: quando nos referirmos ao òrìsà, a palavra será iniciada com letras maiúscula e, ao nos referir à cabeça material, bem como as suas subdivisões, iniciaremos a palavra com letra minúscula. Vencidas as orientações preliminares, vamos ao mote principal.

O orí e suas dimensões

Orí é uma divindade pessoal que serve a uma só pessoa. Trata-se da energia que nos liga ao nosso òrìsà. Conforme um conhecido itan, “Orí faz o que os òrìsà não fazem”. Quando Òrúnmìlà reuniu todos os òrìsà e perguntou: “Quem dentre vós poderia acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar mais? [...] Somente Orí respondeu que poderia acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares”.

O orí é dotado de duas dimensões importantes para a operacionalidade de sua existência física e divina, são elas:

1. o orí-òde, parte física da cabeça. É no orí-òde onde estão todas as características físicas e as afeições humanas. 2. o orí-inú, energia pura, é a parte imaterial que compõe o todo denominado orí. Essa é a parte imortal do orí, é ela quem retorna ao Ọ̀run após a nossa morte material.

Segundo Beniste (2004), ao interpretar um trecho do verso de Ifá pertinente ao odù Ogbètegùndà, “é o orí-inú que controla o orí-òde. Isso sugere, portanto, que o sucesso do ser exterior depende essencialmente, da natureza dinâmica do interior do homem” . Neste sentido, cabe uma reflexão: o homem, na sua essência, é aquele que se move por detrás do que chamamos de matéria. A ser material da forma como o conhecemos é apenas o nosso veículo de existência e locomoção aqui na terra.

Por sua vez o orí-inú é composto por duas partes extremamente importantes e valiosas para a sua existência, são elas:

1. o òkè-iponri onde se localiza o èémí (respiração), o sopro divino. Essa parte é considerada como o núcleo vital do orí. 2. o orí-apere, responsável pela ligação entre o orí-odé e o orí-inú. É o elo que sustenta a relação entre o orí físico e o orí espiritual. Quando esse ele se rompe, ocasiona-se a morte física do Ser.

No plano divino, a tarefa de confeccionar os orí-inú foi dada por Olódùmarè, Deus criador de todas as coisas, a Bàbá Àjàlà, uma divindade da família dos òrìsà funfun que, apesar de ser um òrìsà muito importante do panteão africano, ainda assim fabrica cabeças com imperfeições em face de suas próprias imperfeições sobre as quais não trataremos neste artigo.

Há quem diga que o fabrico de cabeças imperfeitas é proposital para que sejam preservados o livre arbítrio e as possibilidades de escolha do Ser que se materializará para viver na Terra.

A literatura não é clara com relação a isso, ela apenas nos dá um norte para as cogitações. Pensando assim, podemos afirmar que essas imperfeições podem estar relacionadas com as provas que cada indivíduo deverá passar quando materializados aqui na Terra.

Ainda conforme Beniste (2004) , Olódùmarè atribuiu a Òrúnmìlà a missão de testemunhar a escolha do orí que cada um de nós fazemos e a de orientar a todos a fim de nos restabelecer os possíveis desequilíbrios decorrentes das escolhas que fizemos. É tarefa de Òrúnmìlà ensinar-nos como viver em harmonia com o orí que escolhemos. Com a possibilidade de consertar, de equilibrar e de alinhar o orí desconfigurado foi criado pelo sagrado o rito do borí, sobre o qual falaremos noutro artigo que pretendemos escrever especialmente, para tratar de tal assunto.

O orí-odé, parte física e mortal do grande sistema denominado orí é dividido em cinco partes que estão intimamente relacionadas com os seus lados, vejamos:

1. o iwájú-orí, o lado da frente, a testa; 2. o ípàkó-orí, o lado de trás, a nuca; 3. o àtàrí, o lado de cima, a coroa; 4. o òsì-orí, o lado esquerdo da cabeça; 5. o òtun-orí, o lado direito da cabeça.

O orí é a força espiritual que nos conhece integralmente dadas as suas várias dimensões. É ele quem sabe de todas as nossas necessidades e é capaz de provê-las tão logo necessitemos.

O nosso orí é programado inicialmente por Olódùmarè para nos conhecer em nossa amplitude e nos conduzir a um caminho previamente determinado pelo sagrado no Ọ̀run. O nosso ori é capaz de nos livrar de todos os males terrenos e não terrenos.

Divindades ligadas ao orí

Se levarmos em consideração que todo òrìsà pode ser dono de uma cabeça, então, todos eles deveriam compreender a relação daqueles que vamos apresentar neste tópico, no entanto, restringir-nos-emos apenas aos que possuem uma importância direta no processo de criação e de manutenção do orí, são eles:

Olódùmarè: é o criador de tudo e de todas as coisas, é ele quem dá a vida ao orí. É Ele que sobra o hálito sagrado que nos faz viver como seres dotados de uma centelha divina. No itan que assegura ser Àjàlá o modelador de cabeças, está escrito que depois de ter terminado a tarefa de construir orí, “Olódùmarè pôs no homem a respiração e ele viveu.” (PRANDI, 2001)

Àjàlà: é o oleiro que molda o orí-inú. Conforme o itan supracitado, Olódùmarè solicitou a Àjàlá para que terminasse a obra incompleta de Òṣàlá. Tornou-o o responsável pela confecção das cabeças dos homens e das mulheres. Sabe-se que Òṣàlá havia criado os seres, mas não havia lhes atribuído uma cabeça.

Segundo sabemos, os orí fabricados por Bàbá Àjàlà não são iguais e, por isso, não têm as mesmas qualidades e capacidades. Quando a pessoa, pouco esclarecida, vaidosa, impaciente escolhe o seu próprio orí sem se atentar para esse fato, ela pode eleger um orí que lhe ofereça maiores dificuldades aqui na Terra; no entanto, quando alguém escolhe ou é auxiliado a escolher um orí melhor confeccionado, sua vida poderá ser mais fácil na curta e efêmera passagem que terá neste planeta. Ao escolher o orí, o indivíduo está escolhendo o seu destino que poderá ser de sucesso ou de fracasso, ou de um misto das duas coisas. Esse fenômeno classifica os orí em dois tipos que são:

1. o orí-rere -  bom orí - é aquele que inevitavelmente terá sucesso, aquele que vencerá todas e quaisquer dificuldades sem muitos esforços. 2. o orí-buruku - mau orí - é aquele que certamente terá dificuldades para se adequar às exigências do ambiente terreno, é o orí que deverá ser acompanhado de perto por Òrùnmìlá a fim de prover suas necessidades espirituais e terrenas por intermédio de Ifá que poderá lhe indicar a possibilidade de conserto com um borí.

A escolha de um bom orí não significa necessariamente a escolha do sucesso. Escolher um bom orí significa escolher as melhores condições e o melhor potencial para alcançar o sucesso. Todos, independente da escolha que fizemos, devemos trabalhar para potencializar a capacidade do orí que escolhemos a fim de alcançar o sucesso. A diferença da quantidade de trabalho é medida pela escolha do orí que fizemos no Ọ̀run.

Yemanjá: No itan em que Yemanjá é eleita a protetora das cabeças, conta-se que o grande senhor Olódùmarè fez uma reunião e convocou todos os òrìsà, apenas Yemanjá levou um presente: a cabeça de um carneiro que ela havia imolado. Vendo isso, Olódùmarè expirou: “Awoyó orí dorí re”, cuja tradução é: “Cabeça trazes, cabeça serás”. Desde então, Yemanjá passou a ser a senhora de todas as cabeças. É ela a mãe protetora de todos os orí.  Não há rito de borí completo sem que Yemanjá seja reverenciada.

Òrùnmìlá: conforme vimos anteriormente no tópico em que falamos de Àjàlá, Òrùnmìlá, o òrìsà responsável pelo testemunho da verdade, é aquele que está presente no momento em que escolhemos o nosso orí. É ele a própria verdade contida em nosso destino. E sem sombra de dúvidas é o único que nos pode auxiliar por meio de Ifá a resolver quaisquer que sejam os problemas apresentados em nosso orí e na nossa existência como um todo.
O orí é o caminho de cada indivíduo

Acima, vimos que podemos escolher um bom ou um mau orí e que isso pode determinar o que seremos aqui na Terra. No entanto é bom lembrar que essa escolha não garante o sucesso ou o fracasso sem que haja outras possibilidades.

Por exemplo, um ser que tenha escolhido um orí-rere (bom orí) pode muito bem fracassar em sua missão aqui na terra, enquanto outro que tenha escolhido um ori-buruko (mau orí) pode, por meio de saídas honrosas, conseguir o sucesso.

Os orí não são imutáveis. Se fossem programados para não mudar de acordo com as nossas ações, não haveria o livre arbítrio com o qual nascemos todos.

Quem nasce com um orí-rere deve se esforçar para mantê-lo bom ou procurar melhorá-lo. De igual modo, entendemos que quem nasce com um orí-buruku deve procurar potencializá-lo a fim de torná-lo melhor.

Muitos de nós percebemos que não nascemos para o sucesso e nos conformamos passivamente com isso, nada fazemos para melhor, para potencializar ou para otimizar a capacidade do nosso orí.

Um orí bem zelado, bem alimentado, bem reverenciado, respeitado em todas as hipóteses, é um orí de bons caminhos, de felicidade, de harmonia, de saúde, de fatura, de riqueza, de alegria, de amor.

No entanto, se o nosso orí, de alguma forma, for maltratado, ele pode não funcionar como foi programado inicialmente. As nossas boas ou más atitudes podem determinar a capacidade de ação do nosso orí e, consequentemente, mudar nossas trajetórias. Um orí-rere pode, por vaidade não alcançar o sucesso, enquanto um orí-buruku pode melhorar sua condição, por se dobrar aos conselhos do sábio Òrùnmìlá.

A embriaguez do álcool, a torpeza das drogas e a impudicícia dos maus sentimentos e das más ações, promovidas por pensamentos ou por palavras (pecado), podem levar o nosso orí a se desprogramar e, consequentemente, ao sofrimento e ao caos.

Muitos que sofrem de doenças físicas, psicológicas e/ou morais, cujo diagnóstico conclusivo, as ciências terrenas não conseguem chegar, podem ter nascido entre os que escolherem um orí-buruku ou, de alguma forma, ter sofrido de uma disfunção do orí, caso tenha nascido, a priori, entre os que escolherem um orí-rere.

Como já vimos, a programação do orí se dá no Òrun, porém sua reprogramação pode ocorrer aqui mesmo no Àiyé (Terra), por meio dos conselhos de Òrúnmìlà que enviará as regras a um bàbálòrìsá ou ìyálòrìsá por intermédio de Ifá. O realinhamento ou cura de um orí desprogramado pode-se dar com a ministração de um borí que significa literalmente: dar comida a cabeça.

A expressão borí vem da junção de dois radicais da língua iorubá, a saber: bo=comida + orí=cabeça. Sobre esse mágico rito de reprogramação do orí veremos em outro texto que já estamos escrevendo.

Considerações finais

O tema sobre o òrìsà Orí é por demais amplo e, ainda que quiséssemos, não conseguiríamos dar conta de tudo o que se tem para falar a respeito desse mote num único texto.

Assim sendo, anunciamos que este pequeno artigo não está finalizado, outros conhecimentos decorrentes das pesquisas que estamos fazendo e também das sugestões, sempre muito bem-vindas dos nossos leitores, poderão ser acrescidos ao que já foi previamente consignado.

Cabe ainda salientar que: o que apresentamos neste texto foram as nossas verdades a respeito do òrìsà Orí e de suas interfaces; os nossos argumentos que, porventura, forem refutados e devidamente justificados pelo nosso leitor sempre muito atento, poderão ser aparados, ajustados, acrescidos, rejeitados na medida em que nos convencermos que nossa verdade carece de outras verdades.

Referências

BENISTE, José. Òrun Àiyé: o encontro entre dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ỌFỌ́ TI ÀṢẸ

Recolhido e organizado poer Thonny Hawany




Àṣẹ Òrìṣà lenu mi o 
Àṣẹ Òrìṣà lenu mi
Gbogbo ohun mo tí wi 
Níki irun ìmònlẹ oba o 
Àṣẹ Òrìṣà lenu mi

Tradução:

Força de Orixá em minha boca
Força de Orixá em minha boca
Toda minha voz é entendida
e sentida pelos 400 Espíritos Reais
Força de Orixá em minha boca

ÀDÚRÀ TI ELÉDA

Recolhido e organizado por Thonny Hawany




Àwa nà wúre eléda wa
Àwa nà wúre eléda wa
Mo adúpe wúre ati odúnmódún
Mo adúpé wúre ati òsú mòsu
Mo adúpé wúre iba gbogbo
Àwa nà wùre eléda

Tradução:

Nós temos boa sorte vinda do Senhor da Criação
Nós temos boa sorte emanada do Senhor da Criação
Eu agradeço pedindo a benção por muitos anos
Eu agradeço pedindo a benção a essência do meu Criador
Eu agradeço pedindo a benção e saudando a todos

Nós temos boa sorte dada pelo Senhor da Criação.

ÀDÚRÀ TI ORÍ

Recolhido e organizado por Thonny Hawany




Saudação:  Òrí o! Gb’Orí o!

Orí ení kini sàka ení
Orí ení kini sàka yan
Orí olóore ori jẹ̀ o
A saka yìn ki ya n’to lo ko
A saka yìn ki ègbón mi gbẹ̀
Ìta nù mo bo orí o.

Tradução:

Cabeça que está purificada na esteira
Cabeça que está purificada na esteira caminha soberbamente
A cabeça do vencedor vencerá
A cabeça limpa que louvamos mãe permita que façam uso dela
A cabeça limpa que louvamos meu mais velho conduzirá
Ar livre e limpo oferendo a cabeça