quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

CUMPRIMENTOS E SAUDAÇÕES EM YORÙBÁ

Por Thonny Hawany

Em todas as línguas do mundo, há expressões apropriadas para que as pessoas possam cumprimentar-se umas às outras nas mais diversas situações do cotidiano. Essas expressões, geralmente, são um conjunto de frases curtas que servem para assegurar a boa convivência entre as pessoas de um mesmo grupo ou entre indivíduos de grupos diferentes.

Então vamos às expressões:

Ẹ káàró ou Ẹ ku aro = Bom dia!
Ẹ káàsán ou Ẹ ku asán = Boa tarde!
Ẹ káale ou Ẹ ku ale = Boa noite!
Ẹ káàbó ou Ẹ ku abọ = Seja bem vindo!
Ọ dọ̀la = Até amanhã!
Ọdárò = Até amanhã![1]
Ọdàbó = Até logo!
A jeun? = Servido?[2]
Kò a dúpé = Não, obrigado!
Béèni, jòwó = Sim, por favor!
Ṣe dada ni? Como vai você? (informal)
N kó? = Como vai? / Como vão?
Wón wà = Bem!
Ṣe àlàáfià ni? =  Como vai o senhor?[3]
Àlàáfià ni, a dúpé = Vou bem, obrigado! (resposta formal)
Èmi ni dara dara = Vou bem, obrigado! (Resposta informal)
Ẹ ṣe gan = Obrigado
Ẹ ṣe é o = Obrigado
A dúpé = Obrigado
Kò tòpẹ́ = Não há de que!
Àlàáfià rẹ = Não há de que!
É jòwó = Por favor
Bi báyò = Parabéns!
Ni ayò odum titun = Feliz aniversário!
Odun dara dara rẹ́! Ou Ni ayò ójo ìbi ré! = Feliz aniversário!
Mo júbà = Meus respeitos
Mo kí o = Meus cumprimentos!
Aniversário = ójo íbì

Devemos nos lembrar sempre que a língua yorùbá é bem diferente da nossa língua portuguesa, especialmente, no tocante à acentuação gráfica. Atenção para:

a)    A letra “s”, quando tem o ponto embaixo (ṣ), deve ser pronunciada como se fosse o “x” na palavra xale.
b)    A letra “e”, quando tem o ponto embaixo (ẹ), deve ser pronunciada como se fosse o “e” na palavra café.
c)    A letra “o”, quando tem o ponto embaixo (ọ), deve ser pronciada como se fosse o “o” na palavra cipó.
d)    Em yorùbá, a letra “j”, quase sempre é pronunciada como se fosse composta pelo encontro de dj.

Espero que todos aproveitem essa lição e que façam uso no dia a dia.

[1] . Serve também como boa noite nos casos em que não se vai mais ver a pessoa naquele dia.
[2] . A expressão serve para todas as refeições
[3] . Modo formal. Usa-se para pessoas mais velhas ou para pessoas mais graduadas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

GUERRA ENTRE OXALÁ E ODUDUA

Odudua havia criado o mundo. Mas, chegando enfim sobre a Terra, Oxalá lembrou aos lmalés reunidos que fora ele o encarregado por Olodumaré de criar o mundo. Era ele, pois, o seu verdadeiro senhor.

Muitos lmalés acreditaram e submeteram-se a ele. Os seguidores de Oxalá são aqueles que, até hoje, esfregam o corpo com giz (èfun). São orixás brancos (orixás funfun).

Os seguidores de Odudua são os demais. Eles são comandados por Ogum e começaram a combater Oxalá.

Os que apoiavam Oxalá puseram-se, por sua vez, a combater Odudua. Oxalá os encorajava dizendo-lhes: "Sejam combativos!" Odudua encorajava os seus dizendo-lhes, também: "Sejam combativos!"

Oxalá não queria submeter-se a Odudua. Odudua, por sua vez, afirmava que fora ele o enviado para criar o mundo.

Esta batalha tornou-se uma verdadeira fúria e não demorou a generalizar-se. Os conselheiros de Oxalá lhe diziam: "Procure um meio de liquidar Odudua, pois, se ele morrer, quem, senão tu, ficará como chefe? Porque tu não podes morrer."

Odudua, inquieto, foi consultar Orunmilá. Que deveria fazer para não ser morto? Pois, os que faziam oferendas para matá-lo eram numerosos. Orunmilá lhe disse que fizesse oferendas e que ele lhe prepararia folhas de Ifá com perfeição. "É verdade que eles têm a intenção de te matar. Mas, se fizeres as oferendas convenientemente, tu não morrerás!"

Aconselhou-o a oferecer uma vaca sem chifres, uma cabra, um carneiro, um pombo, um caramujo e vinte e um sacos de búzios da costa. Odudua fez as oferendas para não ser morto.

Orunmilá aceitou tudo e preparou para ele medicamentos protetores com as folhas de Ifá. Depois, esfregou o corpo de Odudua com estes medicamentos, pronunciando as palavras encantadas: "Que este medicamento atue fortemente! A folha de Iyéyé diz que vais viver(yé)! O respeito vem com as folhas de Agidimagbayin! Deus Supremo feche a porta do além. Nós não vamos morrer! Ifá deixe que me torne muito velho! O carneiro branco veio com a cabeça coberta de pêlos brancos. Que pêlos brancos cresçam em todo o meu corpo! Cabra! Substitua-me na morte! Um pombo não abre jamais o caminho para os mortos! Ifá traga calma à casa! Pai, dê-me calma na estrada!
Ifá, destrua comigo o complô do malfeitor!"

Odudua não morreu. Todos aqueles que prometeram a Oxalá matar Odudua, tentaram tenazmente. Mas, de um em um ou de dois em dois, todos, absolutamente todos, morreram. E Odudua permanecia sempre lá.
Por isto chamaram-no "Rei Aboba” (nós retornamos ao mundo e o encontramos ainda lá). A guerra entre Odudua e Oxalá durou muito. Houve um tempo em que Odudua foi abandonado por todos.

Oxalá disse então aos Imalés que queriam ajudá-lo "todos vós, quereis me ajudar a matar Odudua?" Os Imalés responderam que o matariam sem perdão, mas que Odudua tinha muitos talismãs protetores.

Oxalá mostrou-lhes que, quando Odudua ia tomar seu banho, retirava todos os talismãs que carregava consigo. Era imprescindível escolher este momento para atacá-lo.

Os lmalés se prepararam. Aquele que luta com um sabre, aquele que luta com um fuzil, aquele que luta com um arco e flechas, aquele que tem o poder sobre o fogo. Do primeiro ao último, todos se prepararam.

Eles esperaram que Odudua fosse tomar seu banho e se despojasse dos seus talismãs. Quando Odudua ensaboou a cabeça, Ogum gritou: "Venham todos! É o momento!"

Eles se levantaram ao mesmo tempo e, todos, circundaram Odudua. Odudua, vendo-os chegar, jogou espuma de sabão sobre eles. "Ah!" Alguns caíram de bruços, sem poder se levantar.

Outros cegaram. O que recebeu espuma na boca não podia mais abrí-la. O que recebeu nas pernas ficou aleijado. Ninguém foi capaz de se aproximar de Odudua.

Tempos depois, Odudua resolveu vingar-se. Que caminho seguir para eliminar Oxalá? Ele achou um meio. Mandou cavar um poço profundo no palácio. Um dia que todos os lmalés reuniram-se na casa de Oxalá, Odudua juntou-se a eles e ficou, modestamente, no último lugar. Fingindo considerar-se inferior a Oxalá, ele declarou: "Meu pai Oxalá, agora que a disputa terminou, eu vim visitar-vos.

Eu parei a luta; não estou mais om raiva. Eu reconheço que sois mais antigo que eu. Ah! chega de lutas, chega de disputa! Vós, também, deveis um dia vir à minha casa para que todos possam ver que a guerra, verdadeiramente, terminou.

"Oxalá disse: "Nada mal! Eu irei saudar-vos depois de amanhã." O poço que Odudua mandara cavar estava pronto. Odudua mandou cobrir este poço com belas esteiras. Oxalá preparou-se e tomou a estrada. Sua roupa branca arrastava sobre o solo. Por onde passava, as árvores caíam fora da estrada. Por onde passava, as colinas tomavam-se planícies. Por onde passava, os buracos fechavam-se imediatamente. Oxalá ia em direção ao palácio de Odudua.

Em uma de suas mãos, ele levava sua bengala de estanho (o opaxorô). Os que o acompanhavam gritavam: ”Alayeluwa, senhor do mundo! Escravos, venham render homenagem! Oxalá, fundador da cidade de Igbô! Escravos, venham render homenagem! Oxalá, senhor do opaxorô! Escravos, venham render homenagem!"

Oxalá chegou ao palácio de Odudua. Passou pelo buraco, dissimulado sob as esteiras, sem cair. O poço, por instantes, fechou-se sob seus pés. Oxalá dirigiu-se para o lugar onde ficavam dispostas as almofadas. Sentou-se confortavelmente e convidou Odudua a vir juntar-se a ele.

Como Odudua hesitasse, Oxalá estendeu-lhe a mão e o atraiu para si. "Ah!" Odudua caiu na própria armadilha! Oxalá retomou triunfante para casa.

A guerra se etemizava. Oxalá e Odudua queriam, ambos, ser reconhecidos como senhores deste mundo, para a criação do qual eles haviam contribuído. Eles estavam decididos a destruí-lo, se sua ambição fosse frustrada.

Orunmilá estava inquieto com esta interminável guerra. Ela arriscava destruir o mundo que Olodumaré o havia encarregado de proteger. Seu receio tornava-se mais forte ainda, pois os exércitos de Oxalá e Odudua preparavam-se para um combate final.

Ambos declaravam que, se vencidos, destruiriam o mundo. Orunmilá foi ver Oxalá e lhe disse: "Oh! Obatalá-Oxalá, reflita! Não foste tu que Olodumaré enviou para criar o mundo e vigiar aqueles que tu nele criastes? O mundo é teu! Odudua me encarregou de dizer-te que ele tem vergonha. Ele não ousava vir pedir-te de novo. Ele quer apenas ajudar-te a dirigir o mundo. Nós todos te rendemos homenagem! O mundo é teu."

Lisonjeado, Oxalá falou: "Como? Ele compreendeu finalmente? A questão está encerrada!" Orunmilá, então, levantou-se e foi ver Odudua. Disse-lhe: "Oxalá me encarregou de dizer-te que ele não passa de um velho. Tu, Odudua, possuis o mundo. Não seria conveniente que um velho suplicasse a um mais novo! É por isso que, ele mesmo, não pode pedir-te! Cuidas, pois, deste mundo!" Odudua declarou: "Nossa disputa terminou! O mundo não perecerá mais!"

Assim, Orunmilá acalmou Oxalá e pacificou Odudua! Eles celebraram a paz, enfim recuperada! Eles dançaram e dançaram.

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://www.mundodasmagias.com/orixas/oduduwa/

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

OLOFIN-ODUDUA CRIA O MUNDO EM LUGAR DE OXALÁ

Olodumaré, o Deus Supremo, residia no além, no além de um mundo que ainda não existia. Ele aí vivia arrodeado de seiscentos lmalés, as divindades criadas por ele. Duzentos lmalés permaneciam à sua direita. Quatrocentos permaneciam à sua esquerda.

Dos primeiros, pouco falaremos. Eles eram maus, orgulhosos, desleais e mentirosos. Eles discutiam e lutavam sem parar.

Olodumaré não tinha mais um minuto de descanso. Num instante de impaciência e de cólera, ele devolveu ao nada todos os lmalés da direita.

Todos, menos Ogum. Ogum, o valente guerreiro. O homem louco dos músculos de aço que, tendo água em casa, lava-se com angue! E o colocou como guia dos quatrocentos lmalés da esquerda.

Num dia deste passado distante, Olodumaré os convocou e disse: "Eu vou criar um outro lugar. Um lugar que será para vocês. Vocês, aí serão numerosos. Cada um será um chefe e terá um lugar para si. Cada um terá seu poder e seu trabalho próprios".

Deu a todos o que necessitariam e criou, com perfeição, tudo o que prometera. Olodumaré reúne, então, num só lugar, os quatrocentos e um lmalés.

Orunmilá Eleri-Ipin, o testemunho do destino, mantém-se a seu lado. Todos os lmalés deverão pedir-lhe a palavra. Ele mostrará a cada um deles, o caminho a seguir.

O primeiro a responder é Obatalá, o rei do pano branco, chamado, também, Oxalá, o "Grande Orixá". Ele é a segunda pessoa de Olodumaré. É a ele que Olodumaré encarrega de criar o mundo, e lhe dá os poderes (abá e axé) do mundo (é por esta razão que é saudado com a expressão "Alabalaxé").

Obatalá os examina, coloca um sob o boné e o outro dentro do seu saco. O saco da criação que Olodumaré lhe confia. Antes de partir, ele vai a Orunmilá pedir-lhe a palavra, o caminho que ele deverá seguir e o que deverá fazer.

Orunmilá lhe diz: "Olodumaré lhe confiou a criação de um outro lugar. Faça uma oferenda para ser capaz de realizá-la e para que a realize com perfeição".

Obatalá, que é muito obstinado, respondeu: "Oh! Orunmilá! A missão que tens, nós te demos, foi por nós decidida, antes que fosses criado! Olodumaré e eu, Oxalá!

Olodumaré, que é Deus Supremo, me envia em missão. Eu, sua segunda pessoa. Tu, Orunmilá, me dizes agora, que devo fazer oferendas para ser capaz de realizar meu trabalho com sucesso!

Que acontecerá se não faço oferendas? Oferendas para a missão que vou realizar? Eu, portador do poder (abá e axé), alabalaxé! Mas, por que? Que necessidade de fazer oferendas?" Obatalá contradiz Orunmilá. Ele tapa os ouvidos, recusando-se a escutar, e não faz as oferendas.

Todos os outros Imalés vão consultar Orunmilá. Este escolhe para cada um deles uma oferenda determinada. Olofin-Odudua é o que mais se evidencia. É uma espécie de Obatalá. Mas ele não tem posição nem reputação comparáveis às de Oxalá. Orunmilá responde: "Se tu fores capaz de fazer a oferenda que vou te indicar, este mundo que criarei, ele será teu. Lá, tu serás o chefe!"

Olofin pergunta qual é a oferenda. Orunmilá lhe diz que ofereça quatrocentas mil correntes. Que ofereça uma galinha que tenha cinco garras, que ofereça um pombo, que ofereça um camaleão, que ofereça, ainda, quatrocentos mil búzios.

Olofin-Odudua faz a oferenda completa. Chegou o dia de criar o mundo. Obatalá chama todos os outros Imalés. Eles começam a caminhar e se vão. Já na estrada, eles chegam à fronteira do além.

Exu é o guardião (onibode) desta fronteira e o mensageiro dos outros deuses. Obatalá recua-se a fazer oferendas neste lugar, para que a viagem seja feliz. Exu aponta uma cabacinha mágica na direção de Obatalá.

A sede começa a atormentá-lo. Ele vê um dendezeiro. Agita seu cajado de estanho (opaxorô) e se serve dele para perfurar o tronco da palmeira. O vinho escorre copiosamente.

Oxalá se aproxima e bebe à vontade. Ele está plenamente satisfeito, mas fica embriagado. Ele não sabe em que lugar está, nem o que faz. O sono o invade e ele adormece à beira da estrada. Dorme profundamente e ronca.

Todos os outros Imalés sentam-e à sua volta. Respeitosamente, eles não ousam acordá-lo. Esperam que ele acorde espontaneamente.

De repente, Olofin-Odudua levanta-se e apanha o saco da criação, caído ao lado de Obatalá. Ele volta a Olodumaré e diz: "A pessoa que fizeste nosso chefe, aquele a quem entregaste o poder de criar, bebe muito vinho de dendê. Ele perdeu o saco da criação. Eu o trouxe de volta!"

Olodumaré responde: "Ah! Se assim é, tu que encontraste o saco da criação toma-o, vá criar o mundo!" Então, Olofin-Odudua volta aos Imalés reunidos. Toma as quatrocentas mil correntes e, ainda no além, amarra-as a uma estaca.
Ele desce até a extremidade da última corrente, de onde vê uma substância estranha, de cor marrom.

É terra! A galinha de cinco garras voa e vai pousar obre o montícolo. Ela cisca a terra e a espalha sobre a superfície da águas. A Terra se forma e vai e alargando cada vez mais.

Odudua grita: ”Ilè nfè!”(a terra se expande), que veio a ser o nome da cidade santa de Ilê Ifé. Olofin-Odudua coloca o camaleão da oferenda sobre a terra. Ele anda sobre ela com passos cautelosos.

Odudua só ousa descer porque está atado à ponta da corrente. A terra resiste e ele caminha. Seu olhar não pode alcançar os limites. Todos os outros Imalés ainda estão no além. Odudua os convida a descer sobre a terra.

Apenas alguns deles o seguem; os demais permanecem sentados à volta de Obatalá adormecido. Obatalá acorda, enfim. Ele constata que o saco da criação lhe foi roubado.

"Ah! Quem ousou fazer este furto?" Os deuses que permaneceram fiéis lhe dizem: "Foi Odudua que se apoderou do saco da criação".

Ele entende o que ocorreu. Encolerizado, Obatalá volta a Olodumaré e queixa-se do roubo do qual foi vítima. Olodumaré lhe pergunta: "Que fizeste para adormecer assim?"

As pessoas desta época não mentiam jamais. Obatalá, responde com sinceridade: "Eu vi uma palmeira de dendê, furei o seu tronco com o meu opaxorô. Deste furo começou a sair água. Dela eu tomei e adormeci."

"Ah! diz Olodumaré, "não beba mais, nunca mais, desta água. O que fizeste foi grave!" Por esta razão, até hoje, o vinho de dendê é proibido a Oxalá e a seus descendentes.

Olodumaré declarou: "Não tendo criado a Terra, tu criarás todos os seres vivos: os homens, os animais, os pássaros e as árvores".

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://www.juntosnocandomble.com.br/2014/08/a-lenda-da-criacao-do-mundo-os-orixas.html

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

ORUNMILÁ, REI DO TERCEIRO MUNDO

Ifá é consultado por Obá Jegijegim, o "rei comedor de varetas de pau". Ifá é consultado por Obá Jomijomi, o "rei bebedor de água". Ifá é consultado por Obá Jeunjeun, o "rei comedor de alimentos".

Obá Jegijegi é o nome de Ogum. Quando Olodumaré criou os seres humanos, escolheu Ogum para reinar sobre eles, para conduzí-los ao mundo e cuidar deles. Oferendas foram pedidas a Ogum, antes da sua partida. Ogum não fez as oferendas.

Quando chegou ao mundo, Ogum cortou varetas tenras de madeira pra que os homens comessem. Eles morreram todos e voltaram a Olodumaré. "Não é fácil viver sobre a Terra!" Obá Jomijomi é o nome de Orixá.

Oodumaré voltou a chamar os seres humanos e escolheu o Orixá para suceder Ogum. Oferendas foram pedidas ao Orixá, antes de sua partida. O Orixá recusou-se a fazer as oferendas. Quando chegou na Terra, ele ofereceu água de beber ao seres humanos. Eles beberam, mas morreram todos.

Obá Jeunjeun é o nome de Orunmilá. Antes mesmo que Olodumaré falasse, Orunmilá declarou que ele seria o enviado para substituir o Orixá. Olodumaré concordou: "Muito bem, eu te escolho".

Orunmilá chamou os adivinhos para que eles lhe indicassem as oferenda que deveria fazer. Eles disseram-lhe para preparar muitas sementes. Sementes de legumes tètè, ekuya, milho, feijão, inhame, fava.

Do além, ele espalhou estas sementes sobre a Terra. Elas cresceram ali onde caíram. Havia muitos legumes tètè e ekuya. Foram os ekuya que os homens comeram de início. Foi, depois, a vez dos tètè. Esta foi a alimentação deles, durante muito tempo. O milho amadureceu em seguida e o feijão cresceu; o inhame produziu seus tubérculos.

A Terra tornou-se confortável. Ninguém morreu mais. Os seres humanos se reproduziram e tornaram-se numerosos. Ogum e Orixá ficaram enciumados. O reino deles não tivera sucesso, enquanto o de Orunmilá era uma vitória.

Eles decidiram arruinar a Terra. Orunmilá foi consultar Ifá: "Como proteger a Terra destas criaturas más?" Orunmilá recebeu as seguintes instruções: Ele deveria procurar dois cães, matá-los e cozinhá-los. Preparar inhame e massa de milho, muito vinho de dendê. Matar duas cabras e cozinhá-las, quebrar muitos caramujos e cozinhá-los, levar tudo na encruzilhada Aro, onde todos os Imalés costumam parar, quando vêm a Ifé.

Quando os dois chegaram a Aro, Orunmilá, vestido de branco, foi encontrá-los,
Eles comeram, ficaram satisfeito e disseram: "Foste tu, Orunmilá, que nos preparaste toda esta comida?" Orunmilá respondeu: "Sim". Disseram-lhe, então: "Apenas tu possuis este mundo!" Orunrnilá respondeu: "Eu Orunmilá, não possuo o mundo. São você dois que o possuem". E ele explica a significação desta história: "Os seres humanos devem, logo ao raiar do dia, mastigar varetas de madeira, para limpar os dentes. Após, devem beber água para enxaguar a boca e, apenas em seguida, comer a colheita de Orunmilá". A Terra tornou-se confortável. Nós estamos, agora, no reino de Orunmilá.

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.
FONTE DA IMAGEM: http://setasparaoinfinito.blogspot.com.br/2013/04/lendas-dos-orixas-orunmila-ifa-orula.html


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

RIVALIDADE ENTRE ORUNMILÁ E OSSAIN

Orunmilá (Elerin Ipin), o testemunho do destino dos seres humanos, está precisando de um criado. Ele vai ao mercado e, entre os escravos que estão à venda, ele escolhe Ossain.

Manda-o desmatar o campo para preparar as novas plantações. Entretanto, para desespero de Orunmilá, Ossain volta à noite, sem ter cumprido sua ordem.

Orunmilá lhe pergunta por que ele nada fez. Ossain lhe responde: "Todas estas plantas, estas folhas e estas ervas têm virtudes.Elas não podem ser destruídas.

Esta folha, por exemplo, acalma as dores de dentes; esta outra, protege contra os efeitos de trabalhos maléficos; esta outra, ainda, cura a febre. Impossível, em verdade, arrancar plantas tão necessárias à saúde e a felicidade!"

Orunmilá impressionado, decide que Ossain deverá, a partir de então, permanecer ao seu lado durante as sessões de adivinhação, para guiá-lo na escolha dos remédios que deverá prescrever a seus consultantes.

Uma surda rivalidade se estabelece, pouco a pouco, entre esses deuses. Ossain, sofrendo por ser mantido em submissão, vangloriava-se de ser mais importante que Orunmilá, pois ele possuía o poder da magia mortal e dos medicamentos que preparava.

Ossain chegou a declarar ao rei Ajalayé que ele viera ao mundo antes de Orunrnilá e, sendo mais antigo, tinha direito a seu respeito.

O rei Ajalayé envia, então, uma mensagem a Orunrnilá. Ele quer saber, entre ele e Ossain, qual o mais importante dos dois. Orunrnilá responde ser ele mais antigo que Ossain.

O rei decide submetê-los a uma prova. Ele os convoca, acompanhados de seus primogênitos. Orunrnilá chega com seu filho, chamado Sacrifício. Ossain apresenta-se com o seu, chamado Remédio.

Os dois serão enterrados durante sete dias. Aquele que sobreviver à provação e responder primeiro, com uma voz clara e forte, ao chamado que será feito, no fim do último dia, verá seu pai ser declarado vencedor.

Duas covas foram abertas. Sacrifício e Remédio foram colocados dentro e as covas foram fechadas.

Orunrnilá, voltando para casa, consultou Ifá. "Meu filho estará ainda vivo, passados os sete dias?" Ifá aconselhou-o a oferecer muito ekuru - um prato saboroso, bolo de feijão, pimenta, um galo, um bode, um pombo, um coelho e dezesseis búzíos da costa.

Orunrnilá preparou a oferenda. Ela foi colocada em quatro lugares: na estrada, numa encruzilhada, diante de Exu e no mercado. Exu exerceu seu poder sobre o coelho sacrificado. Este ressuscitou e cavou um buraco que foi terminar na cova de Sacrifício, o filho de Orunrnilá.

Assim, o coelho levou alimento para ele. Remédio, o filho de Ossain, nada tinha para comer. Mas, ele possuía alguns talismãs que agiam sobre a terra e permitiram-lhe, assim, encontrar Sacrifício no fundo da sua cova.

Remédio pede-lhe comida. Sacrifício responde: "Ah! Como posso eu, filho de Orunmilá, dar-lhe comida, quando há uma disputa em jogo? Tu não vês que assim causarás o sucesso de Ossain, estando vivo para responder ao chamado que será feito no fim dos sete dias?"

Remédio insiste e promete a Sacrifício permanecer calado quando for feito o apelo. Sacrifício, então, dá de comer a Remédio.

E chegou o final da prova. Os juízes chamam o filho de Ossain: "Remédio! Remééédio! Remééééédio! Eles chamam em vão. Remédio não responde. "Bem! Remédio está morto" - concluem eles.

Chamam, depois, o filho de Orunmilá: "Sacrifício !" Imediatamente, escutam um forte sim. Sacrifício está são e salvo! Remédio sai, em seguida, igualmente vivo.

Ossain pergunta ao filho a razão do seu silêncio, quando foi chamado o seu nome. Remédio narra o pacto feito com Sacrifício.

Comida contra silêncio! Este pacto tornou-se provérbio: "Sacrifício não deixa Remédio falar". Significando que sacrifício é mais eficaz que Remédio. Razão pela qual, Orunrnilá tem uma posição mais elevada que Ossain.

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://www.mundodasmagias.com/orixas/ossanhe/

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BRIGA ENTRE OXALÁ E EXU

Oxalá e Exu discutiam sobre quem era o mais antigo deles. Exu, decididamente, insiste ser o mais velho. Oxalá, decididamente também, proclama com veemência que já estava no mundo quando Exu foi criado.

O desentendimento entre eles era tal que foram convidados a lutarem entre si, diante dos outros Imalés, reunidos numa assembléia.

Ifá foi consultado pelos adversários e foram, ambos, orientados a fazer oferendas. Oxalá fez as oferendas prescritas. Exu negligenciou a prescrição.

O dia da luta chegou. Oxalá apoiado em seu poder, Exu, contando com a magia mortal e a força dos seus talismãs.

Todos os Imalés estavam reunidos na praça de Ifé. Oxalá deu uma palmada em Exu e boom! Exu caiu sentado, machucado.

Os Imalés gritaram: "Êpa!" Exu sacudiu-se e levantou-se. Oxalá bateu-lhe na cabeça e ele tornou-se anão. Os Imalés gritaram juntos: "Êpa!" Exu sacudiu-se e recuperou seu tamanho.

Oxalá tomou a cabeça de Exu e sacudiu-a com violência. A cabeça de Exu tornou-se enorme, maior que o seu corpo. Os Imalés gritaram juntos: "Êpa!" Exu esfregou a cabeça com as mãos e esta recuperou seu tamanho natural. Os Imalés disseram: "Está bem!

Que Exu mostre agora seu poder sobre Oxalá." Exu caminhava pra lá e pra cá. Ele bateu na própria cabeça e dela extraiu uma pequena cabaça. Ele abriu-a repentinamente e virou-a na direção de Oxalá.

Uma nuvem de fumaça branca saiu da cabaça e descoloriu Oxalá. Os Imalés gritaram juntos: "Êpa!" Oxalá esfregou-se, tentando readquirir sua antiga cor. Mas foi em vão. Ele falou: "Está bem!"

Oxalá desfez o turbante enrolado sobre sua cabeça e, daí, tirou o seu poder (axé). Tocou com ele sua boca e chamou Exu. Exu respondeu com um sim. Oxalá ordenou-lhe: "Venha aqui!" Exu aproximou-se. Oxalá continuou: "Traga sua cabacinha". Exu a entregou nas mãos de Oxalá.

Este a tomou firmemente e a jogou no seu saco. Os Imalés exclamaram: "Êpa!" E disseram: "Oxalá é, sem dúvida, o senhor do poder (axé). O senhor da iniciativa e do poder (alabalaxé).

Tu és maior que Exu. Tu és maior que todos os orixás. O poder de Oxalá ultrapassa o dos demais. Exu não tem mais poder a exercer. Oxalá tomou a cabaça que ele utilizava para o seu poder. "É esta cabaça que Oxalá utiliza para transformar os seres humanos em albinos, fazendo, assim, os brancos, até hoje.

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://pt.wikipedia.org/wiki/Oxal%C3%A1

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

OXALUFÃ

Êpa Baba!

Oxalufã era o rei de Ilu-ayê, a terra dos ancestrais, na longínqua África. Ele estava muito velho, curvado pela idade e andava com dificuldade, apoiado num grande cajado, chamado opaxorô.

Um dia, Oxalufã decidiu viajar em visita a seu velho amigo Xangô, rei de Oyó. Antes de partir, Oxalufã consultou um babalaô, o adivinho, perguntando-lhe se tudo ia correr bem e se a viagem seria feliz.

O babalaô respondeu-lhe: "Não faça esta viagem! Ela será cheia de incidentes desagradáveis e acabará mal." Mas, Oxalufã tinha um temperamento obstinado, quando fazia um projeto, nunca renunciava.

Disse, então, ao babalaô: "Decidi fazer esta viagem e eu a farei, aconteça o que acontecer!" Oxalufa perguntou ainda ao babalaô, se oferendas e sacrifícios melhorariam as coisas.

Este respondeu-lhe: "Qualquer que sejam suas oferendas, a viagem será desastrosa." E fez ainda algumas recomendações: "Se você não quiser perder a vida durante a viagem, deverá aceitar fazer tudo que lhe pedirem.

Você não deverá queixar-se das tristes consequências que advirão. Será necessário que você leve três panos brancos. Será necessário que você leve, também, sabão e limo da costa."

Oxalufã partiu, então, lentamente, apoiado no seu opaxorô. Ao cabo de algum tempo, ele encontra Exu Elepô, Exu "dono do azeite de dendê". Exu estava sentado à beira da estrada, com um grande pote cheio de dendê.

"Ah! Bom dia Oxalufã, como vai a família?" "Oh! Bom dia Exu Elepô, como vai também a sua?" "Ah! Oxalufã, ajude-me a colocar este pote no ombro." "Sim, Exu, sim, sim, com prazer e logo."

Mas, de repente, Exu Elepô virou o pote sobre Oxalufã. Oxalufã, seguindo os conselhos do babalaô, ficou calmo e nada reclamou. Foi limpar-se no rio mais próximo. Passou o limo da costa sobre o corpo e vestiu-se com um novo pano; aquele que usava ficou perto do rio, como oferenda.

Oxalufã retomou a estrada, andando com lentidão, apoiado no seu opaxorô. Duas vezes mais ele encontrou-se com Exu. Uma vez, com Exu Onidú, Exu "dono do carvão"; Outra vez, com Exu Aladi, Exu "dono do óleo do caroço de dendê".

Duas vezes mais, Oxalufã foi vítima das armadilhas de Exu, ambas semelhantes à primeira. Duas vezes mais, Oxalufã sujeitou-se às consequências.
Exu divertiu-se às custas dele, sem que, contudo, conseguisse tirar-lhe a calma.

Oxalufã trocou, assim, seus últimos panos, deixando na margem do rio os que usava, como oferendas. E continuou corajosamente seu caminho, apoiado em seu opaxorô, até que passou a fronteira do reino de seu amigo Xangô.

Kawo Kabiyesi, Sango, Alafin Oyó, Alayeluwa! "Saudemos Xangô, Senhor do Palácio de Oyó, Senhor dó Mundo!" Logo, Oxalufã avistou um cavalo perdido que pertencia a Xangô. Ele conhecia o animal, pois havia sido ele que, há tempo, lho oferecera.

Oxalufa tentou amansar o cavalo, mostrando-lhe uma espiga de milho, para amarrá-lo e devolvê-lo a Xangô. Neste instante, chegaram correndo os empregados do palácio. Eles estavam perseguindo o animal e gritaram: "Olhem o ladrão de cavalo!

Miserável, imprestável, amigo do bem alheio! Como os tempos mudaram; roubar com esta idade! Não há mais anciãos respeitáveis! Quem diria? Quem acreditaria?"

Caíram todos sobre Oxalufã, cobrindo-o de pancadas. Eles o agarraram e arrastaram até a prisão. Oxalufã, lembrando-se das recomendações do babalaô, permaneceu quieto e nada disse.

Ele não podia vingar-se. Usou então dos seus poderes, do fundo da prisão. Não choveu mais, a colheita estava comprometida, o gado dizimado; as mulheres estéreis, as pessoas eram vitimadas por doenças terríveis. Durante sete anos o reino de Xangô foi devastado.

Xangô, por sua vez, consultou um babalaô, para saber a razão de toda aquela desgraça. "Kabiyesi Xangô, respondeu-lhe o babalaô, tudo isto é consequência de um ato lastimável. Um velho sofre injustamente, preso há sete anos. Ele nunca se queixou, mas não pense no entanto ... Eis a fonte de todas as desgraças!" Xangô fez vir diante dele o tal ancião.

"Ah! Mas vejam só!"- gritou Xangô. "É você, Oxalufã! Êpa Baba! Exê ê! Absurdo! É inacreditável, vergonhoso, imperdoável!!! Ah! Você Oxalufã, na prisão! Êpa Baba!! Não posso acreditar e, ainda por cima, preso por meus próprios empregados! Hei! Todo vocês! Meus generais! Meus cavaleiros, meus eunucos, meus músicos! Meus mensageiros e chefes de cavalaria! Meus caçadores! Minhas mulheres, as yabás!

Hei! Povo de Oyó! Todos e todas, vesti-vos de branco em respeito ao rei que veste branco! Todos e todas, guardai o silêncio em sinal de arrependimento! Todos e todas, vão buscar água no rio! É preciso lavar Oxalufã! Êpa Baba! Êpa, Êpa! É preciso que ele nos perdoe a ofensa que lhe foi feita!!" Este episódio da vida de Oxalufã é comemorado, a cada ano, em todos os terreiros de candomblé da Bahia, no dia das "Águas de Oxalá" quando todo mundo veste-se de branco e vai buscar água em silêncio, para lavar os axés, objetos sagrados de Oxalá.

Também, com a mesma intenção, todos os anos, numa quinta-feira, uma multidão lava o chão da basílica dedicada ao Senhor do Bonfim que, para os descendentes de africanos dos outro tempos e seus descendentes de hoje, é Oxalufã.

Epa, Epa Baba!!!

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.


FONTE DA IMAGEM: http://www.raizesespirituais.com.br/orixas/oxala/

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

OXAGUIÃ

Exê êêê!

Oxaguiã era o filho de Oxalufã. Ele nasceu em Ifé, bem antes de seu pai tonarar-se o rei de Ifan. Oxaguiã, valente guerreiro, desejou, por sua vez, conquistar um reino. Partiu, acompanhado de seu amigo Awoledjê.

Oxaguiã não tinha ainda este nome. Chegou num lugar chamado Ejigbô e aí tomou-se Elejigbô - "Rei de Ejigbô". Oxaguiã tinha uma grande paixão por inhame pilado, comida que os iorubas chamam de iyan.

Elejigbô comia deste iyan a todo momento; comia de manhã, ao meio-dia e depois da sesta; comia no jantar e, até mesmo, durante a noite, se sentisse vazio seu estômago!

Ele recusava qualquer outra comida, era sempre iyan que devia ser-lhe servido. Chegou ao ponto de inventar o pilão, para que fosse preparado seu prato predileto! Impressionados pela sua mania, os outros orixás deram-lhe um apelido: Oxaguiã, que significa "Orixá-comedor-de-inhame-pilado", e assim passou a ser chamado.

Awoledjê, seu companheiro, era babalaô, um grande adivinho, que o aconselhava no que devia ou não fazer. Certa ocasião, Awoledjê aconselhou Oxaguiã a oferecer: dois ratos de tamanho médio; dois peixes, que nadassem majestosamente; duas galinhas, cujos fígados fosses bem grandes; duas cabras, cujo leite fosse abundante; duas cestas de caramujos e muitos panos brancos.

Disse-lhe, ainda, que se ele seguisse seus conselhos, Ejigbô, que era então um pequeno vilarejo dentro da floresta, tomar-se-ia, muito em breve, uma cidade grande e poderosa e povoada de muitos habitantes.

Depois disto, Awoledjê viajou para outros lugares. Ejigbô tomou-se uma grande cidade, como previra Awoledjê. Ela era cercada de muralhas com fossos profundos, as portas fortificadas e guardas armados vigiavam suas entradas e saídas.

Havia um grande mercado, em frente ao palácio, que atraía, de muito longe, compradores e vendedores de mercadorias e escravos. Elejigbô vivia com pompa entre suas mulheres e seus servidores.

Músicos cantavam seus louvores. Quando falava-se dele, não se usava jamais o seu nome, pois seria falta de respeito. Era a expressão Kabiyesi, isto é, Sua Majestade, que deveria ser empregada.

Ao cabo de alguns anos, Awoledjê voltou. Ele desconhecia ainda o novo esplendor de seu amigo. Chegando diante dos guardas, na entrada do palácio, Awoledjê pediu, com familiaridade, notícias do "Comedor-de-inhame-pilado".

Chocados pela insolência do forasteiro, os guardas gritaram: "Que ultraje falar desta maneira de Kabiyesi! Que impertinência! Que falta de respeito!" E caíram sobre ele dando-lhe pauladas e cruelmente jogaram-no na cadeia.

Awoledjê, mortificado pelos maus tratos, decidiu vingar-se, utilizando sua magia. Durante sete anos a chuva não caiu sobre Ejigbô, as mulheres não tiveram mais filhos e os cavalos do rei não tinham pasto.

Elejigbô, desesperado, consultou um babalaô para remediar esta triste situação. Este respondeu-lhe: "Kabiyesi, toda esta infelicidade é resultado da injusta prisão de um de meus confrades!

É preciso soltá-lo, Kabiyesi! É preciso obter o seu perdão!" Awoledjê foi solto e, cheio de ressentimento, foi-se esconder no fundo da mata. Elejigbô, apesar de rei tão importante, precisou ir suplicar-lhe que esquecesse os maus tratos sofridos e o perdoasse.

"Muito bem! - respondeu-lhe. Eu permito que a chuva volte a cair, Oxaguiã, mas tem uma condição: cada ano, por ocasião da sua festa, será necessário que você envie muita gente à floresta, cortar trezentos feixes de varetas. Os habitantes de Ejigbô, divididos em dois campos, deverão golpear-se, uns aos outros, até que estas varetas estejam gastas ou se quebrem".

Desde então, todo os anos, no fim da seca, os habitantes de dois bairros de Ejigbô, aqueles de Ixalê Oxolô e aqueles de Okê Mapô, batem-se todo um dia, em sinal de contrição, e na esperança de verem, novamente, a chuva cair.

A lembrança deste costume conservou-se através dos tempos e permanece viva também na Bahia. Por ocasião das cerimônias em louvor de Oxaguiã, as pessoas batem-se umas nas outras, com leves golpes de vareta ... e recebem, em seguida, uma porção de inhame pilado, enquanto Oxaguiã vem dançar com energia, trazendo uma mão de pilão, símbolo das preferências gastronômicas do orixá "Comedor-de-inhame-pilado".

Exê ê! Baba Exê ê!

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://www.vibeflog.com/adriano67/p/23467226 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

DISPUTA ENTRE NANÃ BURUKU E OGUM

Nanã Buruku é uma velhíssima divindade das águas, vinda de muito longe e há muito tempo. Ogum é um poderoso chefe guerreiro que anda sempre à frente dos outros Imalés. Um dia, eles vão a uma reunião. É a reunião dos duzentos Imalés da direita e dos quatrocentos Imalés da esquerda.

Eles discutem sobre os seus poderes. Eles falam muito sobre Obatalá, aquele que criou os seres humanos. Eles falam sobre Orunmilá, o senhor do destino dos homens. Eles falam sobre Exu: "Ah! É um importante mensageiro!"

Eles falam muita coisa a respeito de Ogum. Ele dizem: "É graças a seus instrumentos que nós podemos viver. Declaramos que é o mais importante entre nós!" Nanã Buruku contesta, então: "Não digam isto. Que importância tem, então, os trabalhos que ele realiza?"

Os demais orixás respondem: "É graças a seus instrumentos que trabalhamos pelo nosso alimento. É graças a seus instrumentos que cultivamos os campos.
São eles que utilizamos para esquartejar os animais".

Nanã conclui que não renderá homenagem a Ogum. "Por que não haverá um outro lmalé mais importante?" Ogum diz: "Ah! Ah! Considerando que todos os outros lmalés me rendem homenagem, me parece justo, Nanã, que você também o faça".

Nanã responde que não reconhece sua superioridade. Ambos discutem por muito tempo. Ogum perguntando: "Você pretende que eu seja dispensável?" Nanã garantindo que isto ela podia afirmar dez vezes. Ogum diz então: "Muito bem! Você vai saber que sou indispensável para todas as coisas."

Nanã, por sua vez, declara que, a partir daquele dia, ela não utilizará, absolutamente nada, fabricado por Ogum e, ainda assim, poderá tudo realizar.

Ogum questiona: "Como você o fará? Você não sabe que sou o proprietário de todos os metais? Estanho, chumbo, ferro, cobre. Eu os possuo todos."

Os filhos de Nanã eram caçadores. Para matar um animal, eles passaram a se servir de um pedaço de pau, afiado em forma de faca, para esquartejá-lo.

Os animais oferecidos a Nanã são mortos e decepados com instrumentos de madeira. Não se pode utilizar faca de metal para cortar sua carne, por causa da disputa que, desde aquele dia, opôs Ogum a Nanã.

FONTE DO TEXTO: VERGER,  Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://omidewa.com.br/public_html/arquivos/1183

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

OBALUAÊ

Atotô!

Xapanã nasceu em Empê, no território Tapá, também chamado Nupê. Era um guerreiro terrível que, seguido de suas tropas, percorria o céu e os quatro cantos do mundo. Ele massacrava sem piedade aqueles que se opunham à sua passagem. Seus inimigos saíam dos combates mutilados ou morriam de peste. Assim, chegou Xapanã em território Mahi, no Daomé. A terra dos mahis abrangia as cidades de Savalú e Dassa Zumê.

Quando souberam da chegada iminente de Xapanã, os habitantes desta região, apavorados, consultaram um adivinho. E assim ele falou: "Ah! O grande Guerreiro chegou de Empê! Aquele que se tornará o senhor do país! Aquele que tornará esta terra rica e próspera, chegou! Se o povo não aceitá-lo, ele o destruirá! É necessário que supliquem a Xapanã que vos poupe. Façam-lhe muitas oferendas; todas as que ele goste: inhame pilado, feijão, farinha de milho, azeite de dendê, picadinho de carne de bode e muita, muita pipoca! Será necessário, também, que todos se curvem diante dele, que o respeitem e o sirvam. Desde que o povo o reconheça como pai, Xapanã não o combaterá, mas protegerá a todos!"

Quando Xapanã chegou, conduzindo seus ferozes guerreiros, os habitantes de Savalú e Dassa Zumê reverenciaram-no, encostando suas testas no chão, e saudaram-no: Totô hum! Totô hum! Atotô! Atotô! "Respeito e submissão!"

Xapanã aceitou os presentes e as homenagens, dizendo: "Está bem! Eu os pouparei! Durante minhas viagens, desde Empê, minha terra natal, sempre encontrei desconfiança e hostilidade. Construam para mim um palácio. É aqui que viverei a partir de agora!"

Xapanã instalou-se assim entre os mahis. O país prosperou e enriqueceu, " e o Grande Guerreiro não voltou mais a Empê, no território Tapá, também hamado Nupê.

Xapanã é considerado o deus da varíola e das doenças contagiosas. Ele tem, também, o poder de curar. As doenças contagiosas são, na realidade, punições aplicadas àqueles que o ofenderam ou conduziram-se mal.

Seu verdadeiro nome, é perigoso demais pronunciar. Por prudência, é preferível chamá-lo Obaluaê, o "Rei, Senhor da Terra" ou Omulú, o "Filho do Senhor".

Quando Xapanã instalou-se entre o mahis, recebeu, em uma nova terra, o nome de Sapatá. Aí, também, era preferível chamá-lo Ainon, o "Senhor da Terra", ou, então, Jeholú, o "Senhor das Pérolas".

O fato de ser chamado Jeholú e Ainon causou mal-entendidos entre Sapatá e os reis do Daomé, pois eles também usavam estes títulos. Enciumados, os Jeholú de Abomey expulsaram, várias vezes, Jeholú Ainon do Daomé e obrigaram-no a voltar, transitoriamente, à terra dos mahis. Jeholú Ainon vingou-se: vários reis daomeanos morreram de varíola!

Atotô!

FONTE DO TEXTO: VERGER,  Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://www.ceuue.com.br/arquivo/inspiracao_0408.html