quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

QUE LÍNGUA FALAMOS?

Por Thonny Hawany

As teorias clássicas mostram que, dadas as dimensões territoriais brasileiras, bem como as inúmeras influências linguístico-culturais externas e internas sofridas pelo português, é inviável estabelecer um padrão que seja uniforme e adequado à fala e à escrita. Na tentativa de explicar o que chamamos de padrões do português, nortearemos nossos estudos procurando explicar as dicotomias entre: português padrão (PP), versus português não-padrão (PNP), sincronia e diacronia linguística; bem como as influências diatópicas e diastráticas sofridas pela língua no momento em que é forjada.
Segundo o sociolinguísta Dino Preti, a língua, em sua concepção e evolução, é guiada por dois vetores preponderantes que são as influências territoriais, a que ele chama de caráter diatópico e as influências sócio-culturais, semanticamente, imbricadas no que ele chama de caráter diastrático. Deste modo, não há o que se falar em português padrão, sem considerar os registros cunhados à luz das engrenagens sociolinguísticas. Se a língua é disforme, assim o é muito por conta de todas as influências que recaem sobre ela. Não se pode esperar que um falante Nordestino se comporte de maneira igual a outro no Sul ou no Norte do Brasil. Olhando por outro prisma, não há de se esperar que um falante feminino use a língua da mesma forma que outro masculino; que o falar de um jovem tenha as mesmas características e formas do falar de uma pessoa idosa, que as marcas linguísticas de um grupo de skatistas permaneçam incólumes na fala dos skinheads, dos rappers, dos presidiários, ou ainda que haja uniformidade linguística no falar de grupos profissionais, como médicos, advogados e outros. Os aspectos regionais e sócio-culturais são, em síntese, o fermento que dá viço ao falar de um povo.
Na diacronia, a língua é vista como um todo e, por assim dizer, é estudada numa linha temporal sem interrupções, procurando enfocar sua origem, suas influências e sua evolução histórica; enquanto que, na sincronia, o pesquisador, separa um lapso temporal na referida linha do tempo e procura compreender como a língua se comportou ou se comporta do ponto de vista ortográfico, fonético, morfológico, sintático ou semântico, por exemplo. Se a língua evolui modificando-se diuturnamente, é inviável dizer que a forma padrão de hoje é a mesma de outrora. A língua modifica-se a cada fluxo que recebe, e essas influências quase sempre não são bem-vindas pelas instituições de controle do chamado padrão nacional. O novo, em língua, requer amadurecimento para ser incluso no rol do que se entende por padrão. E isso não vale só para as novas palavras, mas também para novas pronúncias, novas construções e novos significados. Ao observarmos a língua considerando seus aspectos sincrônicos e diacrônicos, não vemos motivos aparentes para nos partidarizarmos com aqueles que a segregam em culta e vulgar objetivando estabelecer o que é certo e o que é errado.
O que se deve entender, então, por português padrão? No passado, essa medida para estabelecer a que uso da língua elevar à condição de culto era puramente ideológica e, em parte, ainda o é até hoje; todavia, no Brasil, adotou-se o método histórico-literário, ou seja, a língua não é o que é, mas o que foi. As formas registradas pelos autores clássicos, tanto de Portugal, quanto do Brasil são o que se entende por português padrão (PP). Tudo que foge à medida de Machado de Assis ou de Eça de Queiroz, por exemplo, é tido como português não-padrão (PNP). Uma decisão, no mínimo, preconceituosa e discriminatória.
A língua é, sobremaneira, um dos principais elementos de interação entre os indivíduos de uma mesma coletividade. É por ela que cada um, individualmente ou em sociedade, manifesta e registra seu conhecimento, suas descobertas e suas riquezas culturais. Não se pode falar num único padrão linguístico dadas às dimensões regionais e sócio-culturais por onde, no Brasil, permeiam os elementos linguísticos forjados na dialética dos grupos, quer seja dominante, quer seja dominado.
A Constituição Federal, em seu art., 13, registra que: “a língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. E nela não está escrito que apenas o dialeto padrão é o idioma oficial, daí, presume-se que todos os dialetos, do mais culto ao mais popular, constituem o idioma nacional do povo brasileiro. Com fulcro no texto constitucional não se pode falar em português padrão, mas em padrões do português. Todos são iguais perante a lei (povo e língua) independente do prestígio que os torna iguais ou diferentes, até porque, em se tratando de justiça social, deve-se, pois tratar os iguais com igualdade e os desiguais com desigualdade com o fino propósito de dar cumprimento ao princípio da isonomia, não só como princípio de direito, mas também como princípio linguístico. Estabelecer um dialeto como padrão é discriminar, é, acima de tudo, marginalizar esta ou aquela forma por não preencher o mínimo exigido pelo crivo do padrão. In fine, estigmatizar a forma de falar de um povo é estigmatizar o próprio povo na mais ampla acepção da palavra.

16 comentários:

  1. Beleza de texto, como sempre; refletir a língua é também refletir nossa condição de falante, povo, raça, história e, por que não, cidadania e soberania; ótimo; já estou divulgando para os alunos de Letras.
    Se tiver um tempinho, acesse a resenha que fiz do disco do Otto; o disco merece uma conferida;

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  2. Olá Professor,
    Gostei muito da sua elaboração, fica mais fácil assimilar as idéias de PP e PNP. Gostei especialmente do trecho " não se pode falar em português padrão, mas em padrões de português", muito bem colocado. Gosto muito de suas aulas, estou adorando o curso e tenho certeza de que fiz a escolha certa.
    Abraço,
    Joice

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  3. Thonny, acabei de ler o texto. Excelente. O seu texto está extremamente claro. A crítica é de alto nível. Confesso que dou muito valor à chamada norma culta, mas percebo que é mais válido transmitir a mensagem do que se prender demais à forma, perdendo-se no conteúdo. A única preocupação que tenho é com os estrangeirismos, que são demais, embora inevitáveis. Um abraço e obrigado por mais essa rica lição.

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  4. E o Blog voltou em alto estilo, não?

    Thonny o texto é sensacional. Destacaria os padrões de português, mas isso já foi feito pela Joice (por falar nisso, Joice se você passar por aqui de novo, sinta-se a vontade em visitar meu blog, você será muito bem vinda...) Pois bem, como ela já fez, vou destacar a belíssima sacada de que todos são iguais perante a lei - povo e língua. De fato, o se fazer entender em Português é usar a língua oficial do Brasil.
    O estilismo em quem fala será relativizado pelo ambiente em que se convive. Certamente a mesma pessoa polida ao falar no seu dia a dia laboral-acadêmico-religioso, adotaria outra postura em um ambiente como um jogo de futebol, por exemplo... mas tudo seria português...

    De se dizer, ainda, que nem sempre o português rebuscado é sinônimo de bom português, porque pode ser que, nele, não se faça entender...

    Teu texto é excelente... o que se torna uma afirmação mais que óbvia...

    Abraço

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  5. Olá professor Thonny, e a primeira vez que acesso o seu blog e ja estou sentindo me um tanto quanto confortavél, por isso aqui deixarei algumas palavras: Primeiramente parabéns pelo belíssimo trabalho.
    Falar o que?, diante de comentários fantásticos?, a nao ser parabenizar os colegas que o fizeram; particulamente adoro críticas quando feitas com argumentos lógicos e nos mostram a verdade; sem duvida alguma ficou muito claro, a diferença entre português padrão (PP) e português nao padrão (PNP), muito obrigado pela colaboraçao. Abraços valdson santos

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  6. Ola professor sou sua aluna do 1º periodo de ciências contábeis.
    Adoro suas aulas e adoro suas criticas com argumentos.
    Seu texto é magnifico e explica exatamente aquilo que o senhor disse na sala na primeira aula.
    So não entendo algumas paravras que ainda não fazem parte do meu focabulario, mas que futuramente espero aprender ouvindo o Sr.
    Parabéns o senhor é um otimo professor.

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  7. Excelente texto!
    Estou no último período da faculdade e sei que levarei comigo grade parte dos seus discursos sobre a linguagem...e até hoje nunca agradeci pelo incentivo em fazer Letras!
    Um dia ainda escreverei tão bem quanto você!
    Bjão! Nicy OLiveira (7º Letras)

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  8. Professor Thonny que maravilha de texto amei lê-lo. É como alguém que pintasse em tela escura com letras brancas a nossa realidade.
    Você é um artista...
    É mais que um privilégio tê-lo como nosso professor.
    Sucessos!!!

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  9. Mestre é um texto grandioso, explica exatamente o que estamos estudando, as formas de linguagem, tanto o culto, o coloquial e o empírico usamos em nosso dia-a-dia. Ficou claro que não utilizamos apenas uma forma de linguagem, e sim, todas as tres formas estão corretas.
    Parabéns, você é um grandioso mestre.

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  10. Izale - 1º ano c.contabeis23 de fevereiro de 2010 10:45

    Ola professor, acabei de ler o texto a linguagem que falamos, e gostei muito, sinto que vou aprender muito com as sua aulas, estou a muito tempo sem estudar mas vou procurar recuperar o tempo perdido.

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  11. Ola prfessor, acabei de ler o seu texto, a linguagem que falamos, e gostei muito, sinto que tenho muito para aprender. Gosto muito das suas aulas, parabens.
    abraço! Izael(1ºc.contabeis)

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  12. Olá Professor, sou a Silvana do 1º período de Ciências Contábeis.
    Muito bom este texto, da gosto ler textos assim tão bem elaborado.
    Obrigada por ser meu Professor, adoro suas aulas é de Super Astral, passa uma energia muito boa. o Sr. é nota 1.000 rsrsrs Parabéns - Beijão

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  13. Boa noite professor Tonny, li o seu texto e é de exelente qualidade e refinamento, claro e atinge o alvo a que se propõe.
    Paulo da Mata 1º adm.

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  14. Ola professor thonny, sou o tercio de letras 1 turma. postei apenas para confirmar o primeiro contato no blog. Depois de quinze anos de marasmo, e sedentarismo inteledctual, me encontro diante de uma figura que estimula o individuo a reflexao e o leva ao espirito critico, de que todos nos somos dotados. prazer te-lo como professor. abraço.

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  15. bom dia. ja li e reli seu texto. para fixar é preciso ler mais de uma vez. o texto é muito claro e objetivo. transmite a ideia na integra. confesso que estou começando a me enteressar por portugues. sempre achei um bicho de sete cabeças, e levei-o a base do decoreba. o senhor é um excelente professor, nao é atoa que é mestre. e te digo mais, se tivessemos mais professores como o senhor, nossa lingua seria bem melhor colocada. as pessoas seriam mais cultas. obrigado por ter sido tao rígido comigo.hoje percebo o quanto deixei de aprender na minha ausëncia.
    Gilciane aluna especial de SI no 1A de C.Contabeis

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