segunda-feira, 7 de março de 2011

RONDONÊS: UMA HISTÓRIA DE AZEDAR O CAPIM DO BUCHO

Por Thonny Hawany

Aquele era um dia que tinha tudo para ser como todos os outros dias da minha vida. Acordei bem cedinho, fiz um katuta bem forte, adoçado com pouco açúcar, bebi gole a gole, saboreando o que Rondônia tem de melhor: o café. Pisando à bailarina, para não acordar os que dormiam, peguei a boroca, abri a porta e vazei, mas não vazei como os que vazam sem vontade, vazei pocado para tirar o atraso dos minutos que gastei pensando na vida enquanto tomava o café.

Entrei na garagem, peguei o carro. Se é que se podia chamar de carro. Trabalhei vinte anos pra comprar um carrinho, quase novo, pra levar os meninos pra escola e a patroa pra igreja. Durante a semana, de segunda a sexta, de vidros abertos pra arejar os ossos, levo o meu esqueleto tinhoso pro trabalho.

Abri a porta da garagem, quase caindo os pedaços... ela, a porta, não eu. Quando cheguei à rua, estava lá um pizero que não dava pra saber se era um bloco de carnaval recém criado no bairro, ou se era a vizinhança, como de costume, esbofeteando-se por alguma coisa, geralmente, insignificante como o motivo de todas as brigas entre vizinhos. Era um sobe e desce, uma gritaria danada, um fubá à barraqueira, cenas dignas de veiculação na mídia nacional. Fantástico? Não, cacetadas do Faustão. O dia começou a ficar pesado, fiz o sinal da cruz, crendices a parte, quase desci do carro para bater três vezes no tronco do mamujacatiá.

Deixei o vuco-vuco para trás, peguei descendo, deitei o cabelo. Tudo para não participar do pizero da vizinhança. Entrei na BR 364 e, como o Severino de João Cabral de Melo Neto, bandiei lá pros lados do Espigão, onde mora Lúcia Tereza, e os passarinhos cantam que nem canta o sabiá de Gonçalves Dias.

Tudo estava indo bem, já havia superado o barraco da vizinhança, diminuí a velocidade, sessenta, quarenta, quase parando pra passar pianim, pianim pelo posto da Polícia Rodoviária Federal. Fiquei logo ressabiado quando vi um guarda saindo da guarita, andando apressado pro meio da pista. Mão direita levantada acima da cabeça, dedos levemente arqueados para trás. “Bom dia! Estamos fazendo uma revista de rotina, o senhor pode me apresentar os documentos do carro e sua habilitação”. Sim, senhor! Respondi. Atrasado que só ônibus pinga-pinga, e um guarda resolve me dar azia justamente naquele dia! Só pensei. Não seria louco de falar.

Pelo retrovisor vi que o primeiro policial fez sinal a um segundo que pegou os documentos, entrou na guarita, enquanto o primeiro voltou pra conversar comigo fazendo algumas perguntas como quem queria me enrolar até que o outro fizesse uma averiguação, puxasse a capivara. Não devo! Matutei. É só uma revista de rotina, pensei no que o guarda falou. Por que não acreditar nele? Afinal, tratava-se de uma autoridade. Nada a temer, comprei o carro, paguei a vista, depois de vinte anos juntando nica por nica. Ufa! Acabou a tal averiguação, conversaram entre eles usando um dialeto que misturava palavras do português com números e outros códigos. Nem que eu quisesse, saberia a tradução.

Mandaram-me descer do carro, desci. Mandaram-me segui-los até a guarita, segui. Mandaram-me sentar, sentei. Recebi voz de prisão por receptação de veículo roubado, chorei. Rachei a cara, caí o cu da bunda, pensei em cair na braquiara. “O carro é peidado”, disse o policial. Tentei me explicar, não consegui. Um virado no cróis, o outro virado no ziza, não me ouviam. Virei no zetelo, botei pocando no discurso. Quero falar com o meu advogado! Chupe essa manga! Toma besta! Henra! Estava podendo. Ele é professor de Constitucional lá na faculdade, emendei de dedo enriste.

O pizero tava armado. Vinte anos de economia, nica por nica, e o carro era peidado. Fiquei de cara com os caras que me venderam o 147. O jeito agora é ganhar o goiais. Azedei o capim do bucho, poquei pra direção, dei partida no carrão, meti o pé na tábua e derrubei a mulher da cama. Ai, meu Deus do Céu!

RONDONÊS: expressões típicas da variação linguística praticada no Estado de Rondônia.

Azedar o capim do bucho: embravecer-se, zangar-se, afligir-se, aborrecer-se, encolerizar-se; irritar-se; desesperar-se, estressar-se, sair do sério. Está é uma expressão que muito provavelmente não se ouve com muita freqüência, mas, dentre todas, está entre as mais curiosas. Ouvi uma única vez na cidade de Cacoal. Quem me falou a respeito desta pérola do rondonês foi a advogada e professora de Direitos, Janete Babinot.

Barraco: discussão, briga, balbúrdia, desentendimento. Trata-se de expressão muito ouvida nos diversos municípios do Estado, muito provavelmente por influência da mídia nacional.

Boroca: bornal, matula, capanga, bolsa de couro ou de tecido. Trata-se de expressão usada nas diversas regiões do Estado, especialmente naquelas com influência de garimpos, tais como: Espigão do Oeste, Ariquemes, Porto Velho, entre outras.

Cair na braquiara: fugir, sair, correr da polícia ou de desafeto, fugir por dentro do mato. Verifiquei o uso desta expressão nos municípios de Jaru, Ji-Paraná, Presidente Médici e em Cacoal.

Cair o cu da bunda: expressão usada para expressar admiração, espanto, indignação. Ouvi esta expressão pela primeira vez no município de Mirante da Serra.

Chupe essa manga: resolva se for capaz. Esta expressão é utilizada pelo advogado e professor universitário de Direito Constitucional da UNESC, professor Fabrício Andrade quando apresenta uma proposição de difícil solução.

Deitar o cabelo: é o mesmo que pegar descendo, ganhar o goiais, ir embora, sair.

Espigão: referencia à cidade de Espigão do Oeste, Estado de Rondônia.

Fubá: é o mesmo que muvuca, pizero, vuco-vuco, bagunça, desorganização, balbúrdia, vozerio. Ouvi esta expressão em Cacoal.

Henra!: interjeição que exprime espanto, satisfação, dúvida, intolerância. Trata-se de uma palavra extremamente polissêmica. A expressão é usado por todo o Estado. Não acredito que haja alguém no Estado de Rondônia que não a tenha usado pelo menos uma única vez, não ser for rondoniense.

Katuta: marca de café, nome de empresa localizada no Município de Jaru. Neste caso, a marca é usada em substituição ao produto como ocorre com bombril para significar qualquer palha de aço. Ouvi a metonímia katuta para fazer a marca significar o café preparado em Ji-Paraná e também em Cacoal.

Lúcia Tereza: prefeita de Espigão do Oeste por três vezes. Não há lugar em Rondônia que as pessoas não conheçam este nome. Em vida, ela faz parte da História e do folclore do Estado.

Mamujacatiá: é o mesmo que mamão jacatiá, árvore com frutos parecidos com o do mamoeiro, mamão-bravo. Ouvi a expressão mamujacatiá uma única vez na cidade de Cacoal.

Meter o pé na tábua: expressão comum em muitas regiões do Brasil e que quer dizer acelerar veículo automotor.

Pegar descendo: é o mesmo que cair na braquiara, ganhar o goiais, ir embora, sair. Expressão comum em Cacoal.

Peidado: quebrado, enrolado, inadimplente, de situação financeira difícil, coisa penhorada, objeto suspeito de ter sido furtado ou roubado; veículo com documentos atrasados. Se há uma expressão típica do Estado de Rondônia, é essa. Assim como outras palavras e expressões, essa é extremamente polissêmica. Os significados e as possibilidades de uso são diversos. Trata-se, a meu ver, de uma pérola dentre as pérolas.

Pianin: silêncio, quieto, agir de modo discreto. A expressão é, geralmente, empregada em duplicidade para intensificar o teor do silêncio, ou da discrição. Essa expressão é usada em quase todas as cidades por onde já passei no Estado de Rondônia e foram muitas.

Pisando à bailarina: expressão que quer dizer andar nas pontas dos pés para não incomodar, agir em silêncio. Essa expressão é pouco comum, ouvi apenas uma única vez em Rolim de Moura.

Pizero: festa, briga. Movimentação popular que não se pode definir pela natureza disforme: não se sabe se é festa, ou se é briga.

Pocar: é o mesmo que sair, ir embora, sinônimo de vazar, azular.

Puxar a capivara: levantar antecedentes criminais. Por influência da mídia, esta expressão é muito ouvida nas delegacias, nos presídios, nos fóruns, nos cursos de direito do Estado.

Rachar a cara: envergonhar-se, sentir vergonha. Esta expressão já foi ouvida por mim nas cidades de Jaru, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná, Porto Velho e em Cacoal. Possivelmente deve ser uma expressão comum por todo o Estado de Rondônia.

Vazar: é o mesmo que sair, ir embora, sair de fininho. Expressão comum por todo o Estado.

Toma besta!: e o mesmo que: bem feito. Expressão usada na cidade de Cacoal.

Vazar pocado: sair correndo, apressado. Pocar na forma do particípio passado funciona como palavra que intensifica o significado de vazar. Expressão comum no Estado.

Virar no cróis: zangar-se, embravecer-se, amalucar-se, encorajar-se, virar no zetelo, virar no ziza. Esta expressão é usada no município de Cacoal.

Virar no zetelo: zangar-se, embravecer-se, amalucar-se, encorajar-se, virar no ziza, virar no cróis. Esta expressão é usada no município de Cacoal.

Virar no ziza: zangar-se, embravecer-se, amalucar-se, encorajar-se, virar no cróis, virar no zetelo. Esta expressão é usada no município de Cacoal.

Vuco-vuco: é o mesmo que pizero, balbúrdia, vozerio, briga, festa barulhenta, aglomeração desordenada de pessoas. Expressão comum em Cacoal.

OBSERVAÇÃO 1: Se você pode contribuir com a minha pesquisa, encaminhe para os e-mails: thonnyhawany@hotmail.com; thonnyhawany@gmail.com outras expressões diferentes das utilizadas neste texto, ou significados, usos e empregos diferentes das expressões que empreguei e que tentei explicar no vocabulário a que chamei de Rondonês (um projeto antigo). Não se esqueça de mandar a palavra, ou expressão, os possíveis significados e a região onde ela é usada no dialeto.

OBSERVAÇÃO 2: A(s) imagem(ns) postada(s) nesta matéria pertece(m) ao arquivo de imagens do Google Imagens e os direitos autorais ficam reservados na sua totalidade ao autor originário caso o tenha.

6 comentários:

  1. Bão Bão Bão, como diria o professor de Direito Constitucional (chupa essa manga, Fabrício)

    Eu lembrei aqui do texto e tive que vir. Muito bom. Quem é que nunca pegou descendo virado no ziza pra poca do vuco vuco antes de sentir a cara pocada de vergonha por conta daquele pizero?? rsrs

    Thonny, pra mim foi mais uma obra prima tua. Parabéns

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  2. Thonny, li o texto no dia em que escreveu e meu avisou. É muito bom a idéia do texto sair assim de um bate-papo de intervalo de aula. Você disse que ia escrever e mandou ver, bem rápido e muito bom. Acho que falta isso pra gente aqui do norte, da Amazônia, de Rondônia: valorizar o que o nosso, a nossa cara, a nossa identidade. E você fez isso muito bem no texto. Sou fã desse espírito de marcar o que é nosso, ainda que com influências inevitáveis de outras regiões, mas a gente precisa sim de um pouco de bairrismo aqui. Desculpe pela demora. Assim vão nos respeitar mais. Você já publicou texto novo? Caramba! Parabéns!

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  3. Que texto gostoso de ler professor. Muito divertido. Algumas destas expressões eu não conhecia, e a maioria com certeza só é falada aqui em Rondônia, eu, pelo menos, nunca ouvi em outro lugar hehe. É igual a colocar suco na sacolinha, só acontece em Rondônia.
    Abraços e até breve.

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  4. A interatividade das palavras e perfeita, nossa cultura Rondoniense nos surpriende pois nem sempre ouvimos algo diferente mais a nossa cultura e extensa, o texta e muito bom de se ler com ele podemos ve as expressoes tipicas que usamos no didia. Parabéns prof adorei
    Enegenharia Ambiental 1a
    Wylka Nayara Guimaraes

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  5. Muito engraçado com ficou essa historia acho muito interessante de como nosso estado apesar de tão novo comparado aos demais conseguiu reunir a linguagem cultural de tantos lugares e em tão pouco tempo formar um vocabulário próprio e que podemos dizer que esse é o jeito RONDONÊS de falar.
    Passei por Porto Velho e morei cinco anos e lá aprendi a maioria dessas gírias de nossa região junto com outras palavras típicas dos índios de nossa região.
    E o mais engraçado que as minhas gírias de interior eram engraçadas para eles mais pra mim que sou do interior e meus pais de outros estados
    eu era o caipira mais eles eram índios na capital
    por inverterem muitas palavras como por exemplo a pipa que lá eles é chamada de Papagaio, que pra mim já é apenas um pássaro.

    Muito bom texto professor já estou esperando o proximo.
    Thiago Henrique Leão
    1ºA Eng. Ambiental

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  6. Sei não se são expressões aí de RO, mas as ouvi pela primeira vez em Cacoal.
    Chupa que é de uva; toma que o filho é teu; há uma clássica que ouvi da querdíssima prof.ª Geane "jiboiando" para expressar o fazer nada.
    Abraços, Volmar,

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