segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

GUERRA ENTRE OXALÁ E ODUDUA

Odudua havia criado o mundo. Mas, chegando enfim sobre a Terra, Oxalá lembrou aos lmalés reunidos que fora ele o encarregado por Olodumaré de criar o mundo. Era ele, pois, o seu verdadeiro senhor.

Muitos lmalés acreditaram e submeteram-se a ele. Os seguidores de Oxalá são aqueles que, até hoje, esfregam o corpo com giz (èfun). São orixás brancos (orixás funfun).

Os seguidores de Odudua são os demais. Eles são comandados por Ogum e começaram a combater Oxalá.

Os que apoiavam Oxalá puseram-se, por sua vez, a combater Odudua. Oxalá os encorajava dizendo-lhes: "Sejam combativos!" Odudua encorajava os seus dizendo-lhes, também: "Sejam combativos!"

Oxalá não queria submeter-se a Odudua. Odudua, por sua vez, afirmava que fora ele o enviado para criar o mundo.

Esta batalha tornou-se uma verdadeira fúria e não demorou a generalizar-se. Os conselheiros de Oxalá lhe diziam: "Procure um meio de liquidar Odudua, pois, se ele morrer, quem, senão tu, ficará como chefe? Porque tu não podes morrer."

Odudua, inquieto, foi consultar Orunmilá. Que deveria fazer para não ser morto? Pois, os que faziam oferendas para matá-lo eram numerosos. Orunmilá lhe disse que fizesse oferendas e que ele lhe prepararia folhas de Ifá com perfeição. "É verdade que eles têm a intenção de te matar. Mas, se fizeres as oferendas convenientemente, tu não morrerás!"

Aconselhou-o a oferecer uma vaca sem chifres, uma cabra, um carneiro, um pombo, um caramujo e vinte e um sacos de búzios da costa. Odudua fez as oferendas para não ser morto.

Orunmilá aceitou tudo e preparou para ele medicamentos protetores com as folhas de Ifá. Depois, esfregou o corpo de Odudua com estes medicamentos, pronunciando as palavras encantadas: "Que este medicamento atue fortemente! A folha de Iyéyé diz que vais viver(yé)! O respeito vem com as folhas de Agidimagbayin! Deus Supremo feche a porta do além. Nós não vamos morrer! Ifá deixe que me torne muito velho! O carneiro branco veio com a cabeça coberta de pêlos brancos. Que pêlos brancos cresçam em todo o meu corpo! Cabra! Substitua-me na morte! Um pombo não abre jamais o caminho para os mortos! Ifá traga calma à casa! Pai, dê-me calma na estrada!
Ifá, destrua comigo o complô do malfeitor!"

Odudua não morreu. Todos aqueles que prometeram a Oxalá matar Odudua, tentaram tenazmente. Mas, de um em um ou de dois em dois, todos, absolutamente todos, morreram. E Odudua permanecia sempre lá.
Por isto chamaram-no "Rei Aboba” (nós retornamos ao mundo e o encontramos ainda lá). A guerra entre Odudua e Oxalá durou muito. Houve um tempo em que Odudua foi abandonado por todos.

Oxalá disse então aos Imalés que queriam ajudá-lo "todos vós, quereis me ajudar a matar Odudua?" Os Imalés responderam que o matariam sem perdão, mas que Odudua tinha muitos talismãs protetores.

Oxalá mostrou-lhes que, quando Odudua ia tomar seu banho, retirava todos os talismãs que carregava consigo. Era imprescindível escolher este momento para atacá-lo.

Os lmalés se prepararam. Aquele que luta com um sabre, aquele que luta com um fuzil, aquele que luta com um arco e flechas, aquele que tem o poder sobre o fogo. Do primeiro ao último, todos se prepararam.

Eles esperaram que Odudua fosse tomar seu banho e se despojasse dos seus talismãs. Quando Odudua ensaboou a cabeça, Ogum gritou: "Venham todos! É o momento!"

Eles se levantaram ao mesmo tempo e, todos, circundaram Odudua. Odudua, vendo-os chegar, jogou espuma de sabão sobre eles. "Ah!" Alguns caíram de bruços, sem poder se levantar.

Outros cegaram. O que recebeu espuma na boca não podia mais abrí-la. O que recebeu nas pernas ficou aleijado. Ninguém foi capaz de se aproximar de Odudua.

Tempos depois, Odudua resolveu vingar-se. Que caminho seguir para eliminar Oxalá? Ele achou um meio. Mandou cavar um poço profundo no palácio. Um dia que todos os lmalés reuniram-se na casa de Oxalá, Odudua juntou-se a eles e ficou, modestamente, no último lugar. Fingindo considerar-se inferior a Oxalá, ele declarou: "Meu pai Oxalá, agora que a disputa terminou, eu vim visitar-vos.

Eu parei a luta; não estou mais om raiva. Eu reconheço que sois mais antigo que eu. Ah! chega de lutas, chega de disputa! Vós, também, deveis um dia vir à minha casa para que todos possam ver que a guerra, verdadeiramente, terminou.

"Oxalá disse: "Nada mal! Eu irei saudar-vos depois de amanhã." O poço que Odudua mandara cavar estava pronto. Odudua mandou cobrir este poço com belas esteiras. Oxalá preparou-se e tomou a estrada. Sua roupa branca arrastava sobre o solo. Por onde passava, as árvores caíam fora da estrada. Por onde passava, as colinas tomavam-se planícies. Por onde passava, os buracos fechavam-se imediatamente. Oxalá ia em direção ao palácio de Odudua.

Em uma de suas mãos, ele levava sua bengala de estanho (o opaxorô). Os que o acompanhavam gritavam: ”Alayeluwa, senhor do mundo! Escravos, venham render homenagem! Oxalá, fundador da cidade de Igbô! Escravos, venham render homenagem! Oxalá, senhor do opaxorô! Escravos, venham render homenagem!"

Oxalá chegou ao palácio de Odudua. Passou pelo buraco, dissimulado sob as esteiras, sem cair. O poço, por instantes, fechou-se sob seus pés. Oxalá dirigiu-se para o lugar onde ficavam dispostas as almofadas. Sentou-se confortavelmente e convidou Odudua a vir juntar-se a ele.

Como Odudua hesitasse, Oxalá estendeu-lhe a mão e o atraiu para si. "Ah!" Odudua caiu na própria armadilha! Oxalá retomou triunfante para casa.

A guerra se etemizava. Oxalá e Odudua queriam, ambos, ser reconhecidos como senhores deste mundo, para a criação do qual eles haviam contribuído. Eles estavam decididos a destruí-lo, se sua ambição fosse frustrada.

Orunmilá estava inquieto com esta interminável guerra. Ela arriscava destruir o mundo que Olodumaré o havia encarregado de proteger. Seu receio tornava-se mais forte ainda, pois os exércitos de Oxalá e Odudua preparavam-se para um combate final.

Ambos declaravam que, se vencidos, destruiriam o mundo. Orunmilá foi ver Oxalá e lhe disse: "Oh! Obatalá-Oxalá, reflita! Não foste tu que Olodumaré enviou para criar o mundo e vigiar aqueles que tu nele criastes? O mundo é teu! Odudua me encarregou de dizer-te que ele tem vergonha. Ele não ousava vir pedir-te de novo. Ele quer apenas ajudar-te a dirigir o mundo. Nós todos te rendemos homenagem! O mundo é teu."

Lisonjeado, Oxalá falou: "Como? Ele compreendeu finalmente? A questão está encerrada!" Orunmilá, então, levantou-se e foi ver Odudua. Disse-lhe: "Oxalá me encarregou de dizer-te que ele não passa de um velho. Tu, Odudua, possuis o mundo. Não seria conveniente que um velho suplicasse a um mais novo! É por isso que, ele mesmo, não pode pedir-te! Cuidas, pois, deste mundo!" Odudua declarou: "Nossa disputa terminou! O mundo não perecerá mais!"

Assim, Orunmilá acalmou Oxalá e pacificou Odudua! Eles celebraram a paz, enfim recuperada! Eles dançaram e dançaram.

FONTE DO TEXTO: VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. 4.ed. Salvador: Corrupio, 1997.

FONTE DA IMAGEM: http://www.mundodasmagias.com/orixas/oduduwa/

Um comentário:

  1. Muito bom o seu blog, estive a percorre-lo li alguma coisa, porque espero voltar mais algumas vezes,
    deu para perceber a sua dedicação em partilhar o seu saber.
    Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante.
    E se gostar e desejar comente.
    Como já estamos perto do Natal, desejo-lhe um Natal Feliz e cheio de paz e saúde.
    Que Deus vos abençõe e guarde.
    António.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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