sexta-feira, 8 de abril de 2016

ÒNÍRÀ: A SENHORA DE IRÁ

Por Thonny Hawany

Ònírà, senhora de Irá, é um dos òrìṣà mais complexos dentre todos os òrìṣà. Ela pode ser impulsiva, geniosa, tensa e intempestiva; mas, ao mesmo tempo, pode ser generosa, tolerante e compassiva.

Segundo relatos, Ònírà, quando viveu na terra, foi uma guerreira que pertenceu à família real de Irá, pequena cidade do Estado de Kwara, localizada nas proximidades de Offa, na República Federativa da Nigéria.

Ònírà queria ser rainha, mas vivia numa sociedade patriarcal em que as mulheres não podiam herdar o trono. Tanto era a sua vontade de governar seu povo que declarou guerra a todos os homens na linha de sucessão, por isso foi tida como uma guerreira muito violenta.

No Brasil, Ònírà é cultuada como se fosse um dos caminhos de Iansã. No entanto, conforme está consignado nos itans, ela é um òrìṣà em si mesma assim como as outras iabás: Òyá, Òṣùn, Iemanjá, Naná(n), Yewa, Otin.

Num dos mais populares itans que fala sobre Ònírà, depois de quase morrer afogada no reino de Òṣùn, ela é enviada por Òṣàlá para o reino de Òyá onde deveria aprender tudo sobre a arte de dominar os eguns.

Se nessa passagem, Ònírà foi enviada por Òṣàlá para conviver com Òyá, isso significa que ela não é Òyá e sim um òrìṣà com personalidade e características próprias cunhadas a partir de sua relação com os òrìṣà com os quais ela teve algum tipo de relação: Ògún, Òṣùn, Òṣàlá, Òṣóòsì, Ọmọlu entre outros.

Como saber se um Ònírà é caminho de Òyá (qualidade) ou um òrìṣà a parte? Fácil! Alguém já ouviu dizer que Topé se encontrou ou foi morar com Ipetu? Que Igbalé se encontrou com Bagá(n)? Que Biniká lutou ao lado de Padá? Muito provavelmente não; mas, no itan de Ònírà, está registrado que ela, por um tempo, foi morar com Òyá para aprender a arte de dominar os eguns.

Assim sendo, Topé, Bagá, Biniká, Padá, Igbalé e outras tantas são caminhos de Òyá (qualidades); enquanto Ònírà é um òrìṣà a parte e que compõe o panteão dos òrìṣà africanos. De igual modo, Ònírà não é Òṣùn, visto que com ela conviveu e teve uma relação de muita amizade.


FONTE DAS INFORMAÇÕES: Itan de Ònírà.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

ÒNÍRÀ: UMA GUERREIRA, UM RIO DE FOGO, UM BÚFALO, UMA BORBOLETA

Por Thonny Hawany

Itan de Ònírà

Ònírà era uma mulher jovem impulsiva, de gênio forte, intolerante, guerreira e que gostava muito de lutar. Ela se sentia bem ao ver a derrota de seus inimigos que caiam por terra, subjugados, a sua adaga.

Preocupados com o desfecho de tamanha impulsividade, o conselho de sábios de Irá foi até Òṣàlá, rei daquelas terras, e o pediu para intervir a fim de evitar que Ònírà continuasse com seus atos desmedidos de violência contra seus inimigos.

Òṣàlá, então, mandou chamar Ònírà que compareceu a sua presença imediatamente. Ao vê-la, o rei ficou preocupado e espantado com tanto sangue espalhado pelas vestes daquela mulher. Suas vestes eram rubras, tingidas a puro sangue.

Òṣàlá mandou que seus conselheiros mais próximos trouxessem grande quantidade de ẹfun e, de posse daquela substância mágica, soprou-a em abundância por todas as vestes de Ònírà, matizando-a de vermelho carmim com o branco cristalino do ẹfun.

À medida que Òṣàlá soprava o ẹfun, o vermelho das vestes de Ònírà esmaecia-se em tons de rosa, apagando de uma vez por todas, não só as consequências de sua impulsividade, mas também seu passado de intolerância aos inimigos.

Òṣàlá ordenou que Ònírà não mais subjugasse a mais ninguém e que jamais vestisse vermelho, ordenou também que ela fosse morar com Òṣùn. Antes de sair, Ònírà declarou a Òṣàlá que sentia prazer em lidar com a vida e com a morte.

Para resolver o impasse, Òṣàlá deu a ela o poder sobre os eguns e disse-lhe que, a partir de então, ela não mais poderia tirar a vida de nenhuma pessoa e que apenas deveria conduz os que morriam ao lugar de merecimento no òrun. Ela concordou e só pediu ao rei que não lhe tirasse sua adaga.

Obediente, Ònírà foi morar com Òṣùn. Tornaram-se muito amigas e, desde sempre, ficava sobre uma pedra, dentro do rio, admirando a beleza da senhora das águas doces. Um dia, adormeceu sobre essa mesma pedra, as águas subiram para além da superfície da pedra fazendo com que Ònírà se afogasse.

Vendo que perderia sua amiga, Òṣùn mergulhou para salvar sua jovem amiga. Ònírà estava desacordada e com aparência de morta... Para animá-la, Òṣùn fez o mais poderoso de seus encantamentos.

Ònírà animou-se do estado de quase morte e no mesmo momento transformou-se numa espécie de fogo líquido, uma lava incandescente que descia rio abaixo... Ònírà deixou de ser mulher para ser um rio de fogo.

Òṣùn, acreditando que Ònírà havia morrido, chorou muito e, às margem do rio, sentada absorta, pensava no que ia dizer para Òṣàlá que havia lhe confiada a vida e a transformação daquela mulher intempestiva.

Enquanto Òṣùn pensava no que ia dizer a Òṣàlá, percebeu que, à sua frente, sobrevoava, de modo frenético, uma linda borboleta de cor salmão com tons alaranjados que depois de exibir seu bailado elegante, voou em direção à parte mais densa da floresta.

Òṣùn seguiu a borboleta e viu, quando defronte a uma grande árvore, ela se metamorfoseou na jovem e bela Ònírà. Òṣùn chorou de imensa alegria e, perplexa, perguntou o que tinha ocorrido para que Ònírà, agora, fosse dona de tamanho poder.

Ònírà consolou Òṣùn e a agradeceu por ter feito o encantamento que, além de lhe devolver a vida, também lhe deu parte dos poderes dela. Ònírà, a partir dali, também poderia se transformar como o fazem as ninfas.

A partir daquele momento, Ònírà poderia ser um rio de fogo nas intempéries e nos seus momentos de íra... poderia ser um búfalo quando precisasse de velocidade, de força, de coragem... poderia ser uma borboleta quando estivesse feliz...

Transcorrido o acontecimento, Ònírà foi a Òṣàlá e lhe contou tudo. Apesar de tudo, ele ainda temia que toda essa mudança não apaziguasse a guerreira que habitava dentro do coração de Ònírà. Cauteloso, Òṣàlá ordenou que ela fosse morar com Òyá e com ela aprendesse tudo sobre a arte de dominar os eguns. Assim ela o fez.

Depois de longos anos ao lado de Òyá, Ònírà tornou-se também senhora dos eguns. Acreditando que já sabia tudo sobre a arte de dominar os mortos Ònírà partiu para novas aventuras e foi morar com Òṣóòsì com o qual aprendeu a caçar.

Em sínte, Ònírà tornou-se um òrìṣà de muitos poderes, de muitas artes e de muitos saberes, aprendeu a dominar a si mesma quando aprendeu a dominar o seu ímpeto. Aprendeu a guerrear, a caçar e a dominar os eguns. Adquiriu o poder de metamorfose da Òsùn. E, por isso tudo, é um dos òrìsà mais completos de que se tem notícia.

Observação: Li diversas versões desse itan (lenda africana) e conversei com pessoas versadas em cultura africana antes de chegar a essa versão que possui um pouco de minha parte Ònírà. Trata-se de uma visão mais direta e sem muitos rodeios.

EM TEMPO: Quero agradecer ao meu amigo e irmão ogá Silvestre pelo apoio, pela amizade e pelos bons conselhos, os quais têm me ajudado muito a me tornar um bàbálòrìsá mais consciente de minha missão terrena. Não posso me esquecer do meu amigo, irmão e compadre Emersom de Òyá que a quase 20 vinte anos me acompanha como conselheiro, contribuindo sempre com o meu crescimento.