sexta-feira, 1 de julho de 2016

ÌKÓÒDÍDẸ: A PENA SAGRADA

Por Thonny Hawany

Introdução

Inicialmente, pretendíamos escrever apenas para falar sobre o conceito, a origem, as características, os significados e os usos da pena do papagaio cinzento africano, chamada de ìkóòdédẹ nos terreiros de Candomblé; no entanto, quando me deparei com o histórico biológico do odídẹ, nome pelo qual os africanos chamam essa ave, entendemos que não seria possível falar da pena, sem antes falar do pássaro de onde ela é proveniente.

A existência da pena como símbolo religioso está intimamente ligada à ave e as suas características e habilidades biofisiológicas. Assim sendo, sem conhecer a ave com toda a intimidade necessária, dificilmente, entenderíamos a importância de sua pena nos ritos de passagem do Candomblé.

O odídẹ

O papagaio cinzento ou papagaio-do-gongo, conhecido entre os africanos por odídẹ, pertencente à espécie psittacus erithacus, é uma ave de porte médio que mede aproximadamente 34 centímetros de comprimento, da ponta da cauda a ponta do bico, e que pode viver entre 50 e 75 anos.

Diferente do que imagina quem só conhece a pena ritualística, o odídẹ tem a cor cinza predominante em todo o seu corpo, exceto na cauda, onde se localizam as penas vermelhas, cujos segredos são guardados a sete chaves pela maioria dos bàbálòrìṣá(s) e ìyálòrìṣá(s).

Conforme nossas pesquisas, o odídẹ, apesar de viver em grandes bandos, é monogâmico e, por isso, é fiel ao seu parceiro/parceira a vida inteira. Segundo o site de um zoológico português (Zoo de Lagos), não é rara a morte de um dos membros do casal depois da morte ou de ausência acidental do parceiro. É característica dessa ave, por ocasião do acasalamento, o casal afastar-se do bando para se revezarem nos cuidados com os ovos e, a posteriori, com os filhotes.

ATENÇÃO! Observe que são características importantes do odídẹ: a longevidade (1), viver em sociedade (2), ser fiel ao parceiro ou parceira a vida inteira (3), dedicar-se aos descendentes (4) e também ser capaz de nutrir sentimentos quase humanos de saudade (5) que pode levá-lo a morte pela falta do parceiro.

O odídẹ é tido pela maioria das fontes que pesquisamos como sendo uma ave muito inteligente, capaz de nutrir sentimento de afeto, não só por seus pares, mas por humanos com os quais pode viver numa relação de cumplicidade.

A inteligência dessa ave faz com que ela se diferencie das demais que podem repetir vozes de outros animais, ou palavras e frases decoradas depois do convívio com humanos, a exemplo do papagaio doméstico brasileiro. Segundo importantes pesquisas, sua capacidade cognitiva e de fala vai muito além de meras repetições.

O odídẹ é capaz de aprender e de demonstrar conhecimento sobre o que aprende ao ponto de inferir uma ideia nova a partir da combinação de duas ideias colocadas, a priori, como premissas. O odídẹ está entre os animais mais inteligentes segundo os estudos de Irene Pepperberg, ilustre pesquisadora associada e professora da Universidade de Harvard em Cambridge (on line)[1].

ATENÇÃO! Nos três últimos parágrafos, apresentamos outras importantes características do odídẹ que merecem destaque, são elas: habilidades que denotam capacidade de inteligência (6), habilidade para sentir afeto e para se comunicar (7), competência para demonstrar que aprende e que é capaz de fazer algo com o que aprende, ao ponto de combinar saberes diferentes para criar algo novo (8).

Consideramos muito relevante prestar atenção aos itens, enumerados acima, a respeito das características do odídẹ para, mais tarde, compreender melhor a aplicação que faremos para justificar a importância do uso do ìkóòdédẹ nos ritos de passagem.

Antes de passarmos para o próximo assunto, queremos ainda apresentar e analisar, mesmo que superficialmente, um ìtàn que versa sobre a existência do odídẹ e a relação que ele tem com o sagrado.

Segundo relatos, certa feita, Olódùmarè promoveu uma competição para saber qual pássaro era o mais bonito entre todos. Sabendo do concurso, todos os pássaros existentes passaram a investir esforços para melhorar sua aparência e beleza. Naquele tempo odídẹ tinha suas penas todas brancas e reluzentes. Tanto era a beleza de odídẹ que todos os concorrentes ficaram preocupados e, para se certificarem que não perderiam em beleza para aquele impoluto papagaio; arquitetaram um plano que consistia em jogar cinzas sobre as alvas penas de odídẹ. Assim foi feito e o vendo se incumbiu de dispersar e espalhar as cinzas jogadas uniformemente tornando o odídẹ um pássaro acinzentado. Insatisfeitos, os pássaros então procuraram um feiticeiro que lhes deram um preparado mágico para tingir as penas da cauda de odídẹ de vermelho, fato que, certamente, o tiraria do concurso. A passarada ficou confiante que odídẹ não participaria do concurso. Para surpresa geral, ele não só participou como ganhou. Ao final do concurso, Olódùmarè o premiou como o pássaro mais belo entre todos, dizendo que odídẹ era o mais bonito visto que a verdadeira beleza é a que estava dentro dele. Desse dia em diante, passou odídẹ a ser um pássaro sagrado que representaria as belas qualidades internas de todos os seres.

ATENÇÃO! O que significa dizer que “a verdadeira beleza é a que está no interior do ser?” Isso quer dizer que o indivíduo pode não ter nenhuma beleza exterior conforme se exige o padrão e a cultura, mas é alguém íntegro, probo, benevolente, respeitoso, de coração puro, fraterno, entre outros. Em síntese, ser um indivíduo bom significa o que Olódùmarè chamou de beleza interior (9). Ser bom é ter em si a semente para ser sagrado (10).

O ìkóòdédẹ

Para justificar inicialmente o que vamos escrever a respeito do uso do ìkóòdédẹ nos cultos afrodescendentes, queremos afirmar que nós, de cultura africana, de modo geral, somos panteístas e animistas. Ao mesmo tempo em que somos monoteístas, porque acreditamos na existência de um único Deus criador, somos panteístas em face de acreditarmos que esse mesmo Deus (Òlódùmarè) é essência pura que se estende para tudo o que criou, cria e transforma; igualmente, somos membros de uma sociedade animista, porque acreditamos que tudo o que existe possui um tipo de vida, um sopro celestial, independente de ser animal, vegetal ou mineral.

Esse modo de crer no sagrado nos faz entender que todos os elementos utilizados, em nossos cultos, são dotados de poderes especiais de criação e transformação: o àṣẹ, a exemplo do ìkóòdéde.

Do ponto de vista semiótico, o ìkóòdédẹ é o ícone, o índice e o símbolo daquilo que representa para quem o utiliza como objeto sagrado. Trata-se de um importante signo de representação, visto que carrega em si, ainda que separada, a mesma energia primordial do ser a que representa: o odídẹ.

A pena do odídẹ é o signo revelador do sagrado, é o eco das características biofisiológicas do pássaro. O ìkóòdédẹ não é odídẹ, mas seu ícone por similaridade, haja vista que nele há, não só a genética e parte das características físicas do pássaro, mas também a personificação de tudo o que odídẹ é para ser considerado especial para o sagrado e para ciência.

O ìkóòdédẹ, ao ser usado sobre a cabeça de alguém, não pretende significar o pássaro em si, mas um poderoso índice remissivo às qualidades do pássaro. Não se trata de uma representação por semelhança, mas por contiguidade.

O ìkóòdédẹ tem o poder de nos fazer ser odídẹ em seus atributos; é, sobremaneira, nossa relação contígua com o sagrado. Quando no pássaro, a pena aponta para baixo, quando em nós, para cima mostrando o caminho para onde vão os que se comportam como odídẹ.
Como símbolo, o ìkóòdédẹ é um signo mental, uma proposta artificial de caráter arbitrário que representa o que está consignado no pensamento e na razão do coletivo.

O ìkóòdédẹ não representa o odídẹ fisicamente, mas tudo o que ele significa: longevidade, sociabilidade, afetuosidade, capacidade para nutrir bons sentimentos, responsabilidade, inteligência, poder de comunicação, destreza, bondade, responsabilidade, dedicação, sacralidade, ou seja: tudo o que se espera de alguém que nasce para o àṣẹ na sua mais profunda acepção.

A associação do ìkóòdédẹ às qualidade interiores do odídẹ está no campo das ideias e do sagrado e não na mera associação material. Assim sendo, quando usamos o ìkóòdédẹ na cabeça de um iniciado, quer seja em suas obrigações iniciais, quer seja nas de maior graduação, espera-se que haja uma troca de energias vitais entre o odídẹ e o humano a fim de que este adquira e represente tudo o que há de melhor naquele.

Os objetivos do ìkóòdédẹ são os mesmos nos ritos de passagem relacionados à morte. Em nossa cultura, a morte é meramente um portal pelo qual passamos para alcançar o òrun com o intuito de continuar a jornada iniciada aqui no àiyé. É prudente que sejamos lá, onde quer que seja, também um odídẹ para que, na forma de espíritos, não nos verguemos diante das dificuldades que podemos encontrar.

O ìkóòdédẹ, para nós povo de àṣẹ, funciona como uma espécie senha de acesso ao sagrado; nós o usamos em razão do pacto estabelecido por Òṣùn depois do episódio da visita de Òṣàlá ao seu reino e para ser reconhecidos pelos nossos ancestrais.

Conta-se um ìtàn que certa feita, por ocasião da visita de Òṣàlá, Òṣùn preparou um grande festa, convidou a todos os òrìṣà(s), mas não convidou as Àjẹ́(s) que para vingar, lançou um feitiço sobre o trono de Òsùn fazendo com que ela sangrasse ao se sentar. Todos sabem que Òsàlá tem aversão a sangue e ao vermelho. Isso causou, então, muitos constrangimentos. Para se livrar do constrangimento a que foi submetida por Ìyámi, Òṣùn transformou o pano sujo de sangue em odídẹ, pediu a Èṣù que espalhasse por todos os cantos que daria uma festa e que todos poderiam entrar, contanto que usassem uma pena vermelha da cauda do odídẹ. A festa aconteceu, todos os òrìṣà(s) compareceram e usaram a pena, inclusive Òṣàlá. Òṣùn reverteu, com isso, o constrangimento. De igual modo, contam os mais velhos que Òṣùn ao iniciar o primeiro ìyawo instituiu o uso do ìkóòdédẹ para que esse novo Ser fosse reconhecido por todos como sendo iniciado.


No mito em que Èṣù respeita o tabu para ser elevado a condição de mais velho entre os demais òrìsà, há elementos suficientes para justificar o uso do ìkóòdédẹ nos ritos de passagem como símbolo de submissão. Aquele que está com o ìkóòdédẹ colocado na altura da testa, não pode carregar nada mais sobre a cabeça. Èṣù fez o ebọ́ indicado pelo bàbáláwo com o propósito de conseguir respeito e consideração, usou o ìkóòdéde e, por isso, recebeu do próprio Olòdùmarè a prerrogativa de ser homenageado antes dos demais. Veja que no mito temos duas informações importantes: a primeira sobre o uso do ìkóòdéde e a segundo que nos fala porque  Èṣù é homenageado antes de todos os demais òrìṣà.

O ìkóòdédẹ é, entre as demais penas ritualísticas do Candomblé, a que representa a fecundação, a menstruação, a gestação e o nascimento. É ele quem representa o poder feminino. Conforme se sabe o ìkóòdédẹ é, para além de tudo o mais, símbolo de realeza e de nobreza. É a máxima representação da fidelidade. Usado no ìyawo e nas demais obrigações, pode significar, além de tudo o que já foi dito, mudança de status: de abian para ìyawo, de àbúrò para egbomi e assim por diante.

Considerações finais

Em face de todo o exposto, esperamos ter contribuído com o conhecimento dos irmãos que ainda estão trilhando os primeiros passos dentro das religiões de matriz africana, elucidando que o ìkóòdédẹ não constitui um mero adorno de cabeças, mas um objeto com significação que vai muito além daquilo que se vê apenas com os olhos.

De igual modo, esperamos ter despertado nos irmãos mais experientes a vocação para que também escrevam e publiquem os conhecimentos que têm a respeito da cultura religiosa africana para que tais saberes não se percam para sempre envoltos no manto fúnebre do egoísmo.

ATENÇÃO!

Depois das pesquisas e de conversas com irmãos versados no àṣẹ, chegamos à conclusão que o ìkóòdédẹ não poderia ser assunto de um único texto tendo em vista a exiguidade do tema.

Se imprimíssemos nesta proposta todas as informações colhidas, certamente, escreveríamos um trato e, por isso, inviabilizaríamos o nosso objetivo que, desde o início, era escrever um texto de fácil leitura e de compreensão imediata para os nossos leitores.

Assim sendo e como de costume, queremos consignar que este texto não está acabado e que o assunto, por ser extremamente amplo, deverá ser retomado depois de verificada a procedência das informações encontradas em nossa pesquisa. Há alguns ìtàn(s) e relatos orais que ainda não tiveram sua veracidade atestada. Assim que isso ocorrer, retomaremos o texto para agregar mais informação.

APELO: Pedimos a contribuição de todos que quiserem nos ajudar na construção deste texto.

REFERÊNCIAS

PASSAROS EXÓTICOS. Papagaio do Congo – Guia Completo de Criação Com Fotos. Disónível em: http://passarosexoticos.net/papagaio-do-congo/ Acesso em: 28 de junho de 2016.
ZOOLAGOS. Papagaio cinzento africano, Disponível em http://www.zoolagos.com/pdf/BIRDSPT/Info-A4-papagaio-cinz-african.pdf. Aceso em 28 de junho de 2016.


FONTE DA IMAGEM: http://orisadara.blogspot.com.br/2014_07_01_archive.htm

[1] . THE ALEX FONDATION. Disponível em: http://alexfoundation.org/about/dr-irene-pepperberg/. Acesso em: 28 de junho de 2016.

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